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Música Popular Polifónica Vocal – O Cante Alentejano (3)

(Continuação...)

Esta revolução tem na sua base «o aparecimento da música moderna, do fado e da canção popular, vulgarizados através da rádio, do teatro e do cinema». Por volta de 1935 «não havia ainda aparecido», segundo o Autor, «a primeira "canção" alentejana». O movimento parte sobretudo da margem esquerda do Guadiana, e a Amareleja parece ser um dos grandes focos de difusão desse género novo.

Armando Leça (Música Popular Portuguesa, pp. 21-40), refere também «as modas dobradas pianinhas, entoadas por trabalhadores rurais — ponto, alto, requinta, baixos, com predomínio das vozes masculinas —, nas arruadas, nos sábados à noite, aos domingos, em passeio, "em calhando"»: «o grupo caminhava vagaroso, unido, encostados os homens ombro a ombro». «Alguns destes corais são comuns a todo o Baixo Alentejo, mas a predilecção por este ou outro, as variantes de timbre, a colaboração feminina, a musicalidade dos pontos, altos ou requintas, dão-lhes sonoridades imprevistas, que os renovam na expressividade».

O mesmo Autor (Da Música Portuguesa, p. 69), nota: «A canção orfeónica do Baixo Alentejo é mais ousada nos intervalos, mas tem na sua linha melódica uma similitude, uma lentidão, que, se a caracteriza, dá-lhe também poucas variantes».

Por seu turno, num trabalho recente, J. da Nazaré (Música Tradicional Portuguesa — Cantares do Baixo Alentejo), da análise de oitenta espécimens recolhidos numa área que denomina o Baixo Alentejo, julga poder admitir «que uma organização tonal, maior, se veio inserir numa estrutura modal preexistente, provocando, nesse momento, uma ambiguidade estrutural» (p. 64); e conclui que a música tradicional da região «se encontra nos nossos dias, numa fase de profunda transformação» e que «as duas sedimentações que participam actualmente na organização estrutural de todos os espécimens não são senão uma consequência da metamorfose do sistema modal no sistema tonal» (p. 71).

Além disso, o Autor entende que «ainda que cantados em polifonia... a construção dos cantares modais revela uma mentalidade mais melódica do que harmónica». Desse modo, «a questão básica da evolução da morfologia do repertório é, na verdade, a da transição de uma percepção musical que era baseada, outrora, na melodia "livre da influência harmónica", para a que supõe esta influência assimilada ou prestes a sê-lo». E crê que «a influência da música erudita ocidental terá precedido ao desenvolvimento lento e instintivo do sentimento da harmonia nos cantadores desta região» (p. 74).

«Enfim, a morfologia do repertório encontra-se, actualmente, na fase precisa em que a ordem melódica... perde a sua utilização e cede o lugar à ordem harmónica...» (p .75).

Segundo o Autor, era a economia tradicional — exclusivamente agrícola — «que, tornando possível a comunhão de homens e mulheres na luta pela obtenção dos produtos da terra, presidia à criação e perpetuidade de um dos aspectos mais relevantes do repertório da música vocal de tradição oral da região: os cantares de trabalho». «Tudo leva a crer que, no começo do nosso século, este repertório era exclusivamente cantado por trabalhadores agrícolas.

A "moda" era assim propriedade espiritual de toda a população rural: homens, mulheres e crianças a conheciam e a cantavam». «Desde então, a transformação social e cultural observada na vida destas populações impede-nos de afirmar que estes cantares sejam unicamente pertença dos trabalhadores agrícolas, dado que estes participam de uma promoção social à medida que se assiste à urbanização crescente dos centros rurais».

«É evidente que esta transformação social implica uma transformação cultural que incide sobre os diversos aspectos da vida das populações locais e, especialmente, sobre o seu repertório de música tradicional» (p. 31).

Ernesto Veiga de Oliveira
in Instrumentos Musicais Populares Portugueses,
Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 1964/2000, APÊNDICE III
 

 

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