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1.- Eles existem. E de que maneira! Velhos e novos, uns já sabidos e
avisados, outros desejosos de se iniciarem e de se afirmarem. Juntam-se
nas romarias e nas
feiras, próximo, muito próximo, dos
tascos. Depois do meio-dia, de tarde, pela noite dentro, até de
madrugada. Mais homens do que mulheres. Mesmo na assistência, no
amontoado que rodeia o núcleo de cantadores, os homens predominam. Uma
concertina, às vezes duas. A voz. A voz é que interessa. A
relação da concertina e da voz é já ela um desafio. A concertina prepara
o canto, apoia-o e completa-o, com contracantos expressivos e
acentuados. A voz faz a melodia. Com o mesmo acompanhamento musical, 2
cantadores constroem melodias diferentes. Daí, o estilo pessoal, a marca
identificadora.
O carácter silábico do canto contrasta com as variações do tocador e
forma uma unidade típica. São frequentes os desacordos entre o cantador
e o acompanhamento feito pelo tocador. Tudo é pretexto para a discussão
no grupo que escuta os cantadores. A relação entre o cantador e o
público receptor é também outro desafio.
2.- O grupo envolvente não reúne meros curiosos passageiros. Ele
constitui-se de observadores atentos, acompanhantes fiéis dos
cantadores, conhecedores das suas características, preparadores da
opinião pública, divulgadores da obra do cantador. O grupo fecha-se
sobre os cantadores. É difícil o acesso ao interior. A concentração, o
riso, o olhar são indicadores preciosos do clima criado pelos
cantadores. O amontoado impulsiona e ao mesmo tempo consome a
agressividade dos cantadores.
Porque se trata de uma competição agressiva, porque se trata de um
momento regulador da agressividade latente entre cantadores, entre estes
e o público, entre o próprio público, entre o público e o meio
circundante. A quantos desafios respondem os cantadores ao desafio?
3.- A sonoridade envolvente dos cantadores ao desafio contrasta bem com
a sonoridade criada por estes no interior do amontoado de pessoas que os
escutam. Coexistem na romaria os mais diversos ruídos, as díspares
sonoridades. Daí o refúgio nos tascos mais afastados do bulício, daí a
formação de um amontoado apertado à volta dos cantadores. Esta
resistência é uma procura do silêncio próprio às contendas: só o
silêncio permite a concentração dos adversários; só o silêncio favorece
a criação do texto.
4.- Texto criado espontaneamente. Texto repetido, estudado. Ambos
coexistem, embora se verifique a dominância do texto repetido, da quadra
já sabida. O cantador transfere, adequa, adapta, o sentido da quadra
“mais batida”. Compete-lhe mobilizar o sentido partindo dos recursos que
possui. O adversário sugere variações que são seguidamente aproveitadas.
Se o cantar tem fundamento, ou se conhece ou não se conhece, ou se sabe
ou não se sabe. É característico ouvir dois cantadores sobre passagens
da Bíblia, sobre a história dos santos, sobre um tema definido. A
demonstração de conhecimentos, a sua apresentação metódica e ao mesmo
tempo a sua utilização na disputa, no desafio, são qualidades que
definem um cantador.
5.- Há-os picantes, muito picantes, mas há-os também suaves.
“Bem-educados” e “mal-educados”, são termos que circulam para definir os
cantadores. Mas é preciso ouvi-los, acompanhá-los para se saber
verdadeiramente o significado de “bem-educado” ou “mal-educado”. “A
cantar ao desafio, perde-se o respeito” – ouve-se dizer. Mas as regras
de conduta existem e são apertadas. Não se pense que a arbitrariedade é
que dita eis. É preciso “sabê-las dizer”.
6.- Os temas são os mais variados. Hoje, como ontem, tudo passa pelos
cantadores ao desafia: a religião, a política, o amor, o dinheiro, a
emigração, as mulheres, o sexo, a profissão, as relações pai e filho,
etc. Predomina a temática da mulher e do sexo? Predomina aquela que o
público receptor mais deseja. Que a música é o equivalente simbólico do
desejo e dá bem conta dos nossos impulsos.
7.- Cantares marginais, os cantares ao desafio têm resistido à recolha e
ao estudo. Se bem que hoje em dia as gravações dos cantadores ao desafio
facilitem o trabalho dos investigadores, é no terreno que melhor se
verifica a dinâmica do acontecimento. Porque eles não abdicam da rua, do
vinho, do vivido. Eles fazem-se em muitos anos de prática, de teimosa
paixão. Eles têm pergaminhos a defender. Passam a ser conhecidos pelo
nome da terra e sentem-se personagens de uma narrativa que não só os
alimenta como, sobretudo, lhes dá ocasiões de a constituírem,
solicitando-lhes uma intervenção solene, ritual. |