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- Não é bom beber água de noite, porque ela está a dormir, e se não
puder deixar de beber-se bata-se para a acordar e não fazer mal (Óbidos
e Mangualde). Também em Carviçais, Moncorvo, se diz que a água dorme de
noite, e em Baião, quando alguém tem sede de noite e quer beber água, é
necessário deitar uma pinga fora e diz-se: «Acorda, água, que eu também
já acordei!» «Vamos pelo que diziam os antigos»! O mesmo se faz na Beira
Baixa, como se vê um trecho de Nuno de Montemor:
«- Para se beber, é preciso acordá-la primeiro.
- E como se acorda?
O velho serrano aproximou-se da cantarinha batendo três vezes no cântaro
com os dedos nodosos.
- É assim…- ensinou.
E sacudindo a água verteu-a no copo confiadamente.
- Agora pode bebê-la à vontade…»
Em Óbidos (Peral) afirma-se que a água é corredia. Bebendo-a de bruços,
à noite, a gente levanta-se com o Inimigo (Carviçais, Moncorvo).
- Bebe sangue quem num charco bebe por cima; se for por baixo, bebe
matéria (Elvas; informação de António Tomás Pires).
- Não dão maleitas a quem bebe água por uma brecha (mina) nova de água
(Cinfães).
- Quem urina num rego de água urina a fortuna.
- Se a água está fria quando se bebe, diz-se que não adivinha outra,
i. é, não choverá (Elvas; informação de António Tomás Pires).
- Epostracismo:
em Mangualde os rapazes costumam capar a água com pedras.
- Fecundidade
À porta de Dona Aldonça
Corre um cano de água clara,
A mulher que dela bebe
Logo se sente pejada…
- Leconomancia
e hidromancia: em Mangualde e Óbidos levam água às pessoas que se
supõem mordidas por um cão ou qualquer animal raivoso, porque vêem na
água o animal que mordeu.
- Em Guimarães, quando as mulheres que têm o diabo no corpo vão á mulher
benta, a Braga, para lho expulsar, deitam sal no rio ao passarem por ele
(ouvido em 1884).
- Em Óbidos, quando vão buscar água á fonte, costumam escorrer bem o
cântaro antes de saírem, porque, se levam no fundo algum resto, a fonte
seca. Na Nazaré fazem o mesmo na fonte, para que a fonteiro não venha a
casar com um bêbedo. As raparigas de …, quando iam à Fonte Velha,
costumavam deitar uma gota de água na cavidade de uma pedra que estava
ali perto. E no Alandroal, quando trazem o cântaro da fonte com água,
atam-lhe uma junca ao gargalo para que a água se conserve fresca.
- Na Estremadura entornar água significa lágrimas, tristezas; por isso
em Lisboa deitam-lhe vinho, porque entornar vinho é sinal de alegria.
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