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Dos Santos aos
Fiéis Defuntos
A proximidade destes dois dias do
princípio de Novembro, respectivamente o dia 1 e 2 deste mês, levou a
que frequentemente se imagine que se trata de uma única celebração em
dois dias consecutivos. No entanto, não é assim, embora cada um destes
dois dias tenha muito de comum, que é a celebração do mistério da vida
para além da morte e a esperança de nela tomarmos parte, como membros do
mesmo e único Corpo de Cristo que por nós morreu e para nós ressuscitou.
Os Santos sempre foram celebrados desde o princípio do Cristianismo,
particularmente os Mártires.
As Igrejas do Oriente foram as primeiras (século IV) a promover uma
celebração conjunta de todos os Santos quer no contexto feliz do tempo
pascal quer na semana imediatamente a seguir. Os santos - com destaque
para os mártires - são, de facto, modelo sublime de participação no
mistério pascal. No Ocidente, foi o Papa Bonifácio IV a introduzir uma
celebração semelhante em 13 de Maio de 610, quando dedicou à santíssima
Virgem e a todos os mártires o Panteão de Roma, dedicação essa que
passou a ser comemorada todos os anos. A partir destes antecedentes, as
diversas Igrejas começaram a celebrar em datas diferentes celebrações
com idêntico conteúdo. Os irlandeses, por exemplo, celebravam em 20 de
Abril uma festa em honra de todos os Santos da Europa. A data de 1 de
Novembro foi adoptada primeiro na Inglaterra do século VIII acabando por
se generalizar progressivamente no império de Carlos Magno (influência
de Alcuíno, que era inglês), tornando-se obrigatória no reino dos
Francos no tempo de Luís, o Pio (835), talvez a pedido do Papa Gregório
IV.
Na solenidade de todos os Santos, a Igreja propõe-se esta visão da
glória, às portas do inverno, para que, com o cair das folhas das
árvores e o apagar-se gradual da luz do dia, não esmoreça nos seus
filhos a esperança da vida e da vida plena em Deus, onde os Santos são
para nós ainda peregrinos na Terra, um estímulo e um contínuo convite a
que desejemos, para além da morte, a vida eterna em Deus.
O dia de Todos os Santos é, por isso, um dia de festa que não deve ser
ofuscada pela celebração do dia que se lhe segue.
A comemoração de todos os Fiéis Defuntos nasceu, no entanto, em ligação
com a celebração do dia anterior, e muito naturalmente, pois que também
nela se celebra a vida para além da morte, na esperança da ressurreição
do último dia. O dia chama-se Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos,
depois de Todos os Santos, todos os que partiram deste mundo, marcados
com o sinal da fé e esperam ainda a purificação total para poderem
chegar à visão de Deus.
O nome tradicional para falar dos que partiram é Defuntos - palavra que
significa os que deixaram a sua "função" , a sua actividade terrena e
que não devem ser chamados "Finados", palavra de sabor pagão, que
significaria os que chegaram ao fim de tudo quanto é vida, onde não
haveria lugar para "a vida do mundo que há-de vir", como professamos no
Credo.
Foi o Abade de Cluny, S. Odilão, quem no ano 998 determinou que em todos
os mosteiros da sua Ordem - e eram muitos e influentes - se fizesse a
comemoração de todos os defuntos «desde o princípio até ao fim do mundo»
no dia a seguir ao da solenidade de todos os Santos. Este costume
depressa se generalizou. Roma oficializou-o no século XIV e no século XV
foi concedido aos dominicanos de Valência (Espanha) o privilégio de
celebrar 3 missas em 2 de Novembro, prática que se difundiu nos domínios
espanhóis e portugueses e ainda na Polónia. Durante a primeira Grande
Guerra, o Papa Bento XV generalizou esse uso a toda a Igreja (1915). O
Calendário de 1969 equipara a Comemoração às Solenidades, dando-lhe
precedência sobre os domingos.
Também a sucessão dos dois dias litúrgicos insinua esta íntima ligação
dos dois cultos: a Igreja pretende abraçar todos os cristãos que já
concluíram a sua peregrinação terrena, a começar por aqueles nos quais
já se cumpriu integralmente o mistério pascal com o triunfo da
ressurreição de Jesus Cristo.
Nacional | Luís Filipe
Santos| 31/10/2007 | 17:12 | 4021 Caracteres
Fonte:
www.agencia.ecclesia.pt
email: agencia@ecclesia.pt
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