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Se nas tradições religiosas e nos hábitos
culturais não se injecta a vitalidade de uma fé pessoal e de uma
experiência religiosa autêntica, bem como uma prática cristã
efectiva, na vida privada como na comunitária, então a fé vai-se
diluindo em sentimentalismos efémeros e em
superstições.
Confesso já me ter emocionado nas ruas de
Braga, na Semana Santa. Admito que vivi intensamente as procissões e os
sermões nas ruas de Ovar e de Válega ou em S. Pedro de Castelões, em
Vale de Cambra, seguindo os «passos» de Cristo a caminho do Calvário,
acompanhado de Sua Mãe, Senhora das Dores.
Onde muitos vêem apenas folclore religioso ou
promoção turística, como em Braga ou em Óbidos, vejo uma invulgar
piedade popular que mobiliza centenas e milhares de pessoas, atraídas
pelo sagrado que lhes purifica a consciência, ilumina a razão, lava o
coração e acalenta os afectos.
Perderam muito aquelas comunidades cristãs
que, tendo acabado com as visitas pascais ou compassos, anunciando de
casa em casa a alegria pascal da
Ressurreição com uma cruz florida,
nada inventaram como alternativa. Perdem muito, noutras ocasiões do
ano, aquelas comunidades que retiraram o sagrado às festas religiosas e
as deixaram afogar-se em folguedos barulhentos e vazios de sentido.
Dir-se-á que há o risco de se confundir o
fundo religioso com as formas da criatividade popular, a oração com o
vago sentimento de espiritualidade e a chama da fé com o fogo-de-artifício.
Que há também o perigo de que a estética religiosa se traduza apenas
em folclore atractivo ou até em mercadoria para o comércio. É
verdade. Mas, não se deite fora o bebé com a água do banho.
Defenda-se e promova-se a relação entre a arte popular e a fé.
A religiosidade popular em Portugal continua a aproximar muita e boa
gente de Deus e da Igreja. Vale a pena evangelizá-la, a partir daquela
fome e sede de Deus que o povo simples manifesta e quer satisfazer.
Rui
Osório
Fonte
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