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Estamos em plena época das festas
dos «santos populares»,
S. António, S. João e S. Pedro, e início de
outras festas religiosas também chamadas populares. Essas festas
movimentam multidões, são frequentemente um quebra-cabeças para os
párocos e tema de notícia nos meios de comunicação social do Verão. Vale
a pena reflectir nesse tema.
Há um primeiro
equívoco que é necessário desmontar desde já, o de falar de «religião
popular», como se uma religião nascesse de movimentos populares e desejo
de convívio. «A história das religiões ensina que a base de qualquer
religião, como a base de qualquer cultura, é por definição de origem
sábia e não popular». |
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A designação de populares,
aplicada aqui a certas manifestações religiosas, deriva do propalado
afecto do povo por essas festas tradicionais, mas esse sentimento é
complexo. Por vezes, nem as pessoas sabem discernir claramente donde
lhes vem «aquela paixão pela festa»: se é um verdadeiro amor ao santo,
se é antes o sentimento bairrista e desejo de congregar ali os amigos e
emigrantes, se é o desejo de organizar um convívio mundano onde cabem
certas liberdades, ou se essa paixão por aquele local inclui o
prolongamento de uma festa pagã. É que no local onde hoje se encontra a
capela do santo pode ter estado outrora um ídolo, uma fonte, um penedo,
ligados ao culto da natureza ou ao
calendário do
ciclo agrário, e que os
posteriores nomes dos santos e datas cristãs não conseguiram abafar. É o
caso do S. João, colocado no solstício do Verão, como o Natal foi posto
no solstício do Inverno: tanto as fogueiras do Verão como o braseiro do
Natal são restos das antigas festas pagãs do sol integrados nas festas
cristãs. Algo semelhante se pode dizer das festas de
Todos os Santos e
dos Fiéis Defuntos de 2 de Novembro que, em alguns países,
cristianizaram a Samain celta ou convívio dos vivos com os mortos que se
celebrava ao chegarem as sombras do Outono. E há casos de procissões
cristãs sobrepostas a outras pagãs do calendário romano, como «as
ladainhas de S. Marcos» que se rezavam no dia 25 de Abril para encobrir
as «rubigália» ou preces que os antigos romanos dirigiam a Ceres, deusa
romana da agricultura, contra as larvas que atacam as primeiras culturas
da Primavera.
Numa palavra, a organização do calendário cristão teve um duplo
objectivo: celebrar os factos da história da salvação e os heróis
cristãos que são os santos, e, ao mesmo tempo, fazer a evangelização do
espaço e do calendário, expulsando os ritos pagãos. Em alguns casos, as
festas cristãs criaram uma festa de origem, mas noutros casos tiveram
também uma função purificadora.
Actualmente, para encontrar originalidades locais que possam atrair os
turistas e fazer frente à monotonia da globalização, as associações
locais, as escolas e, por vezes, as autarquias, ressuscitam restos de
festas pagãs e incluem--nas no programa das festas cristãs, misturando
nas festas cristãs as curiosidades arcaicas do paganismo ou
vanguardismos comerciais. Que essas investigações culturais possam
constituir assunto de conversa de clubes desejosos de conhecer as
origens da terra ou ser tema para uma tese de licenciatura,
compreende-se e até será útil. Muito diferente seria incluir a evocação
desses gestos pagãos numa festa cristã com o pretexto de cultura ou de
ir às raízes das coisas. Rigorosamente tratar-se-ia de um retrocesso
civilizacional, se não mesmo de um ataque directo à mensagem cristã.
Os pastores das comunidades eclesiais e os próprios membros das
comissões das festas devem estar devidamente informados da origem das
festas e atentos à ambiguidade do sentimento religioso e cultural das
mesmas para não serem surpreendidos pela agitação de grupos da última
hora e, pior, agentes da confusão. Contudo, não é prudente extinguir sem
mais as referidas festas religiosas apesar dos seus riscos, pois elas
aproximam o povo, alimentam o espírito de comunidade e podem ser veículo
de evangelização.
A norma da Igreja é que a piedade cristã se alimente na fonte da
liturgia que celebra os grandes acontecimentos históricos da salvação, e
que as festas religiosas populares sejam iluminadas por aquelas festas
litúrgicas de cada tempo, essas, sim, dignas de todo o empenho pastoral
e verdadeiras fontes de água pura.
D. Joaquim Gonçalves, Bispo de Vila Real
Fonte
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