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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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  “ANTÓNIO JORGE DIAS (1907-1973): 100 ANOS DE ANTROPOLOGIA EM PORTUGAL"

Clara Saraiva
IICT
Departamento de Antropologia, FCSH-UNL

António Jorge Dias é considerado uma das figuras mais relevantes na moderna antropologia portuguesa. Doutorado em Antropologia pela Universidade de Munique com a tese sobre Vilarinho da Furna, posteriormente editada em Portugal (1948), Jorge Dias consegue reunir em torno de si uma equipa que marcou definitivamente o rumo da disciplina, com a sua mulher, Margot Dias,  Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Enes Pereira.

Influenciado fundamentalmente por duas correntes teóricas, o difusionismo alemão e o culturalismo americano, as suas publicações abrangem um vasto leque de interesses; com ele os estudos etnográficos em Portugal passam a contemplar três grandes vertentes, por ele iniciadas, em que o trabalho de campo adquire um papel fundamental.

A primeira prende-se com as monografias de Jorge Dias sobre comunidades de montanha, como o caso de Vilarinho e de Rio de Onor (uma das suas monografias mais conhecidas Rio de Onor. Comunitarismo agro-pastoril), a reflexão sobre o “comunitarismo agro-pastoril”e as reminiscências de organizações colectivas e igualitárias no norte de Portugal.

A segunda diz respeito ao aspecto mais desenvolvido por essa mesma equipa, a pesquisa sobre as tecnologias tradicionais portuguesas; Dias escreveu um texto clássico sobre os arados, e, em conjunto com Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano, monografias sobre aparelhos de elevar água de rega, sistemas tradicionais de moagem e espigueiros. Salienta-se que estes estudos sobre  as materialidades dos objectos se baseavam sempre na compreensão do que era o seu uso no quotidiano, resultando daí etnografias apuradas sobre as vivências e modos de estar das pessoas que os manipulavam. É no entrecruzar da forte influência da geografia humana de Orlando Ribeiro com a metodologia da “extensive survey” e a vontade de dar um retrato tão exaustivo quanto possível do país e da sua riqueza cultural, espelhada na diversidade da cultura material, que surgem trabalhos como o Atlas Etnológico de Portugal, em que, sob a direcção de Jorge Dias e de Fernando Galhano, se procedeu ao levantamento sistemático e passagem para carta etnológica de uma série de artefactos e equipamentos agrícolas, como os espigueiros e  os tipos de arados.

A terceira vertente relacionou-se com a preocupação em caracterizar a cultura portuguesa, e insere-se no que João Leal denomina a “antropologia da construção da nação”; dela resultaram textos de referência, como “os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa” ,em que Jorge Dias caracteriza a personalidade e o ethos do povo português, ou “”Tentâmen de Fixação das Grandes Áreas Culturais Portuguesas”, em que, seguindo a divisão tripartida de Orlando Ribeiro, J.Dias caracteriza social e culturalmente as três zonas, Portugal Atlântico, Transmontano e o Sul.


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