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António
Jorge Dias é considerado uma das figuras mais relevantes na moderna
antropologia portuguesa. Doutorado em Antropologia pela Universidade de
Munique com a tese sobre Vilarinho da Furna, posteriormente editada em
Portugal (1948), Jorge Dias consegue reunir em torno de si uma equipa
que marcou definitivamente o rumo da disciplina, com a sua mulher,
Margot Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim
Enes Pereira. |
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Influenciado
fundamentalmente por duas correntes teóricas, o difusionismo alemão e o culturalismo americano, as suas
publicações abrangem um vasto leque de interesses; com ele os estudos
etnográficos em Portugal passam a contemplar três grandes vertentes, por
ele iniciadas, em que o trabalho de campo adquire um papel fundamental.
A
primeira prende-se com as monografias de Jorge Dias sobre comunidades de
montanha, como o caso de Vilarinho e de Rio de Onor (uma das suas
monografias mais conhecidas Rio de
Onor. Comunitarismo agro-pastoril), a reflexão sobre o
“comunitarismo agro-pastoril”e as reminiscências de organizações
colectivas e igualitárias no norte de Portugal.
A
segunda diz respeito ao aspecto mais desenvolvido por essa mesma equipa,
a pesquisa sobre as tecnologias tradicionais portuguesas; Dias escreveu
um texto clássico sobre os arados, e, em conjunto com Ernesto Veiga de
Oliveira e Fernando Galhano, monografias sobre aparelhos de elevar água
de rega, sistemas tradicionais de moagem e espigueiros. Salienta-se que
estes estudos sobre as materialidades dos objectos se baseavam sempre
na compreensão do que era o seu uso no quotidiano, resultando daí
etnografias apuradas sobre as vivências e modos de estar das pessoas que
os manipulavam. É no entrecruzar da forte influência da geografia humana
de Orlando Ribeiro com a metodologia da “extensive survey” e a vontade
de dar um retrato tão exaustivo quanto possível do país e da sua riqueza
cultural, espelhada na diversidade da cultura material, que surgem
trabalhos como o Atlas Etnológico
de Portugal, em que, sob a direcção de Jorge Dias e de
Fernando Galhano, se procedeu ao levantamento sistemático e passagem
para carta etnológica de uma série de artefactos e equipamentos
agrícolas, como os espigueiros e os tipos de arados.
A
terceira vertente relacionou-se com a preocupação em caracterizar a
cultura portuguesa, e insere-se no que João Leal denomina a
“antropologia da construção da nação”; dela resultaram textos de
referência, como “os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa” ,em
que Jorge Dias caracteriza a personalidade e o
ethos do povo português, ou
“”Tentâmen de Fixação das Grandes Áreas Culturais Portuguesas”, em que,
seguindo a divisão tripartida de Orlando Ribeiro, J.Dias caracteriza
social e culturalmente as três zonas, Portugal Atlântico, Transmontano e
o Sul.
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