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Os cantos transmontanos constituem umas das mais profundas e originais
expressões da música regional portuguesa.
Não iremos, nesta breve notícia, embrenhar-nos em considerações acerca
da filiação ou influências, remotas ou próximas desses cantos. Mas não
há dúvida que, em múltiplas das suas feições, a música regional de
Trás-os-Montes levanta perplexidades e interrogações que hão-de
certamente apaixonar os estudiosos do folclore comparado. É possível que
estes vislumbrem nela ecos ou reminiscências de expressões e formas
musicais pretéritas, medievalismos, exotismos, a Igreja, a Sinagoga, os
Gregos, os Árabes, tudo o que forma, ou supõe formar, o protoplasma do
homem português e da sua cultura.
Note-se a extrema severidade desta música, destes cantos, o seu carácter
despido de todo e qualquer sentimento ou preocupação de
«agradabilidade», o seu «desenfeitamento», a sua cor terrosa -, o que
tão bem vai com a paisagem de linhas e volumes duros, ensimesmados, com
o génio rude, inteiro, da gente transmontana e o patriarcalismo dos seus
costumes.
No seu lirismo sóbrio e penetrante, certos «romances» cantares - como
Malhaninha de S. João, Valdevinos, Malva-malveta, o Bendito e outros
cantos repassados de vozes, ancestrais, bem se pode dizer a expressão
pura do homem transmontano, parcela do homem universal, nos seus
momentos de funda identificação com o espírito da Terra.
Em traços breves, apontemos alguns cantos, hinos sagrados, cânticos de
trabalho, poemas de amor e de morte, entre os mais significativos do
património musical do povo transmontano:
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O Conde
Ninho.
(Também conhecido por Conde Nilo, Conde Aninho ou Conde Alcano).
É uma cantiga de segada (ou de ceifa). À maneira do rito litúrgico, as
cantigas de segada cantam-se três ou quatro vezes ao dia: de manhã, à
tarde e ao pôr-do sol. A melodia é pentacordal (comum curioso ornato à
segunda maior superior), alternando a terceira maior com a terceira
menor, e pode supor-se, no seu carácter arcaico, protótipo de bom número
de outros cantos que se encontram na região de Trás-os-montes. |