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(Continuação...)
Sua admiração, como a de seus continuadores,
Teófilo Braga, Adolfo Coelho,
Leite de Vasconcellos, entre outros,
positivistas de nome mas românticos de essência, sua admiração, dizia
eu, pela poesia do povo, não foi incondicional. Espontaneidade, pureza
de inspiração, força emocional, sim, mas a poesia perfeita exigia saber
que o povo não tinha e a sua, rude, formalmente imperfeita, carecia de
correcção, de aperfeiçoamento. Por outras palavras, em seu conceito, uma
poesia popular e uma poesia artística, como se à primeira faltassem as
regras, as técnicas de que a arte se acompanha.
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Ora não há poesia sem arte e a do povo só se
nega ou se tem por simples, porque se ignora ou mal se conhece. O homem
do povo, como o intelectual de gabinete utilizam os mesmos instrumentos
na elaboração poética: palavras, inspiração e técnicas. E estas, se a
escola as ensina, também de ouvido se aprendem e consciente ou
inconscientemente se aplicam; o processo poético é idêntico tanto no
vulgo como no não vulgo. Supor o povo a cantar, como se seus versos lhe
saíssem espontânea, instintivamente, sem estudo, sem a lucidez
intelectual que preside a toda a criação artística é erro que só à
ignorância, à alienação do quotidiano popular se deve.
O poema que vem da boca do povo precedeu-o,
por vezes, longa meditação. Na rabiça do arado ou no trabalho oficinal,
vai o espírito organizando a peça literária que a voz ou as poucas
letras reproduzem.
Outra dicotomia corrente é a de literatura
popular e literatura erudita. Uma de homens de saber, de longa
informação escolar, outra de quem não alcançou a intimidade dos livros.
À ciência do povo chama-se-lhe sabedoria, conhecimento empírico que lhe
não dá para conhecer as verdadeiras causas dos fenómenos que observa, um
empirismo bruto que o confina a uma limitada actividade intelectual,
como se um saber profundo se não alcançasse no livro aberto da natureza,
no do convívio dos homens, na experiência do quotidiano.
Literatura popular e literatura culta é
antinomia igualmente falsa. Não há gente com cultura e sem ela. Tem cada
classe a sua, que diverso condicionalismo histórico, social e económico
explicam. Não há uma baixa ou ínfima cultura e uma alta ou superior.
Ainda aqui anda a falsa ideia de que só o ensino instrui, noção clássica
e escolar de cultura. Esta é tudo o que se aprende do nascer ao morrer,
o conjunto das tradições sociais e este conceito antropológico nos salva
de errados juízos de valor.
O que está por definir vigorosamente é o que
é próprio de uma e outra cultura, o que pertence ao povo e o que não é
dele, para além do que é comum e que são as constantes do comportamento
humano. A esse resultado havemos de chegar, quando em diversidade e
profundidade se conduzir a análise etnográfica. Sem essa informação de
base não é possível caracterizar minimamente cultura de classe e cultura
nacional e nem em toda a sua extensão o que é universal no homem.
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