|
Vivemos sob o signo do povo: em política, em
sociologia, em religião e até nos domínios da arte. Os governantes são
do povo e para o povo. Tudo pelo povo, onde antes estava pela
nação. Os sociólogos buscam servi-lo, não é outra a doutrina social
da Igreja. A arte popular ganha força e prestígio.
Os espíritos, cansados de um geometrismo
modelar, de regularidades, cortesias e requintes de uma ordem burguesa,
de um progressismo técnico e frustrante, como que regressam a um mundo
mais autêntico, menos sofisticado, mais directamente expressivo.
Eis-nos como que chegados a um segundo romantismo. Mas significa isso
que se conheça melhor o povo, que tenha havido um esforço sério para o
entender em seu pensamento, em suas manifestações artísticas? Creio bem
que não. Nem o seu saber se preza, nem a sua arte ultrapassa os limites
da singeleza, da ingenuidade, de uma santa ignorância, o que agora, sim,
e com outro empenho se procura corrigir. E multiplicam-se as campanhas
de educação de adultos, de dinamização cultural. Só que a informação que
se lhe quer levar, que os mass-media levam, é a de uma cultura
tida por superior, que violentamente lhe é imposta, em vez de se
aproveitarem as virtualidades da sua; por outras palavras, comete-se uma
agressão, pretende-se uma aculturação impossível.
Este o quadro geral de ideias que, suponho,
servirá a matéria do meu discurso.
Literatura vem de littera, letra, e
significou conjunto de letras, o alfabeto, a escrita, a gramática e daí
instrução em geral, erudição, saber e também mensagem de arte traduzida
pela palavra escrita e o conjunto de obras literárias.
A designação de Literatura Popular,
literatura do povo, associa uma entidade social que as mais das vezes
não usa a escrita para representar a sua arte verbal. E, se assim é, o
vocábulo literatura, no seu sentido próprio, não serve bem o fenómeno a
que se aplica. Pela oralidade que o caracteriza chama-se-lhe também
literatura oral, expressão que, segundo Paul Zumthor, foi inventada
em 1881 pelo notável folclorista francês Paul Sébillot2.
Mas literatura oral contém uma contradição nos termos, além de
que, abusivamente, exclui do seu âmbito as composições escritas.
Outra designação é a de literatura
tradicional. E esta se nos afigura mais desajustada ainda do que as
anteriores. Tradicional significa o que é transmitido de geração em
geração, o que vem de longe, que tem uma certa duração no tempo e vai
nele vivendo. Teremos, por isso, que eliminar a invenção recente que
ainda não passou à voz do povo ou que, por ela passando, com pouca
demora, se poderá extinguir.
Dizer literatura oral e tradicional é
juntar os dois adjectivos sem anular a referida contradição e com
exclusão da sua parte escrita.
|
|
Notas:
1 Publicado, em versão em francês, in Litterature Orale
Traditionnelle Populaire. Actes du Colloque, Paris 20-22 Nov. 1986.
Paris, Fondation Calouste Gulbenkian - Centre Culturel Portugais, 1987.
Digitalizado e revisto por Domingos Morais em Novembro de 1999
2 Introduction à la Poésie Orale, Paris, Éditions du Seuil,
1983, p. 45. |