(continuação)
O bom
recoveiro, muito surpreendido com aquela inesperada aparição,
retomou a jornada, serra abaixo, sempre a repetir as palavras da linda
Senhora que não lhe saía do pensamento.
Mal
entrou nas portas da Bila, tratou de mercar a bola de quatro cantos, não
fosse o pão acabar cedo, pois era dia de feira. Só depois iniciou as
outras voltas. Apreçou, aqui e ali, a mercadoria e fez as compras
para si e para os vizinhos. Enfiou o alforge no grosso varapau de
marmeleiro apoiado sobre o ombro e pôs-se a caminho de casa, já com
o sol a baixar para trás da serra.
E, como
não tinha comido nada, pois comer na estalagem é um roubo, e a
jornada era longa e penosa, sentiu uma vontade irresistível de comer.
Mas comer o quê, se só levava a bola de quatro cantos e a Senhora
lhe recomendara tanto que a levasse bem inteirinha? E depois ia perder
toda aquela riqueza que a Senhora prometera dar-lhe?
Pôs de
parte aquela ideia maluca e continuou a caminhar. Mas um pouco a cima
de Agarez, avistou uma fonte gorgolejante que o convidava a matar a
sede e a descansar. E, como à fome e à sede ninguém resiste,
resolveu parar, pensando lá com os seus botões:
- E
certo que prometi à Senhora levar a bola inteira e eu não sou homem
de faltar à palavra. Mas, como diz o outro, a fome não tem lei.
Vou
comer só um canto e levo-lhe os outros três. A Senhora pareceu-me
tão boazinha... há-de compreender e perdoar.
E, se
bem o pensou, melhor o fez. Sentou-se à beira da fonte, pós o
alforge no chão, comeu o canto da bola e bebeu uma tarraçada de água
fresca. Depois, já reconfortado, retomou a subida da encosta.
Ao
chegar junto do Penedo Negro, bateu com a ponta do varapau. A porta
abriu-se rapidamente e a Senhora reapareceu, mas agora com o semblante
carregado, e disse-lhe com ar severo:
Em cavalo de três pernas,
Contigo não posso ir.
Fecha-te, porta de pedra,
Para nunca mais te abrir.
E desapareceu, enquanto o Diabo
esfrega um olho, atrás da porta de pedra, para sempre.
O pobre do homem, com os três
cantos da bola na mão e o alforje das compras ao ombro, partiu,
desalentado, para a sua aldeia, onde passou o resto da existência, a
lamentar a tentação de comer da bola de quatro cantos, e a calcorrear
os caminhos da serra para ganhar a vida.
E a Senhora linda lá
continua encantada, com os seus tesouros fabulosos, no Penedo Negro, a
que os povos da serra, por essa razão, também chamam Calhau do
Encanto.