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O
CALHAU DO ENCANTO
A Serra
do Alvão, com os seus ciclópicos penedos e ravinas alcantiladas,
vestida de branco no Inverno e de verde no Verão, com ar severo e
misterioso, era ambiente propício para excitar a imaginação dos que
por lá andavam a ganhar o pão ou por lá passavam, a caminho de Vila
Real. Não admira, pois, que, à sua volta, as lendas surgissem, com
toda a naturalidade.
Lá bem
no alto da serra, junto da povoação de Arnal, ergue-se um descomunal
fragão, chamado Penedo Negro e também A Capela, por ter um recorte
em forma de portão de igreja, forrado de musgo verde e macio. Os
pastores e os viandantes olhavam-no com curiosidade e receio e
passavam lá com o credo na boca, pois havia quem dissesse que, à
meia noite, lá dentro, se ouvia um cantar muito triste e arrastado
de mulher que, no entanto, ninguém conseguia ver.
Mas,
certa madrugada, ainda com estrelas no céu, passou por lá um aldeão,
recoveiro de ofício, que ia à Bila fazer compras, como de
costume.
E justamente quando ladeava o esfíngico penedo, ouviu um ruído
surdo semelhante ao ranger de gonzos de pesado portão.
Com os
cabelos eriçados, olhou para o sítio donde viera o ruído estranho e
deu com os olhos numa Senhora muito linda, de sorriso triste mas
encantador, como nunca tinha visto, que lhe disse com voz meiga:
- Não
tenhas medo e presta bem atenção ao que vou dizer-te. Eu sou uma
moura encantada e tenho tanto oiro que não há balanças que o possam
pesar. Pois todo este oiro será teu e eu própria irei para tua casa
e casarei contigo, se conseguires desencantar-me. Para que isso aconteça,
traz-me da Bila uma bola de quatro cantos. Mas toma bem sentido: não
a “encertes” por nada deste mundo; se não, dobras-me o encanto.
Dito
isto, desapareceu no interior do Penedo Negro e a porta voltou a
fechar-se como se abriu.
(continuação »»»)
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