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»» Lendas >> Lenda de Santa Comba (Santa Comba - Ponte de Lima) Pub

Lenda de Santa Comba

(Continuação...)

Entre soluços, o pobrezinho contou à santa as suas desditas, e o que o levava, cheio de esperanças, a Compostela.

- Podeis retroceder.. Vossa noiva é curada... A vossa ardente fé é digna desse prémio... Podeis voltar atrás!

Rindo e chorando, não cabendo em si de contentamento, e não sabendo como agradecer tão grande milagre, o peregrino pegou da rabeca, e fez ouvir uma canção plangente, repassada de sentimento, triste, muito triste...

Quando o arco ia a repousar do último gemido, que mais parecia vibrado nas cordas da alma, Santa Comba, olhos marejados de lágrimas, enternecia pela música gemente do violino, descalçou um dos chapins de oiro, e estendeu-o, num gesto gracioso, ao tocador de rabeca, que recebeu, mudo de assombro, a preciosa dadiva.

De regresso a casa, louco de alegria ao passar em Ponte, entrou na loja de um ourives a propor-lhe a venda do sapato de oiro.

Mas eis que o ourives, reconhecendo um dos preciosos chapins da Santa, começou de gritar:
 -Roubo sacrílego! Roubo sacrílego! Prendam o ladrão!

E logo o prenderam, e, bem algemado, o conduziram para uma das torres da espessa muralha que defendia a povoação.

Debalde protestou a sua inocência, o pobre! Ninguém acreditava em suas juras. A história que contava, a justificar-se, era tida por grosseiro embuste...

E o julgamento foi rápido, e o moço peregrino foi condenado a padecer na forca morte afrontosa, sendo escolhido para local do suplício o largo fronteira à branca ermidinha que presenciara o crime que lhe imputavam.

Chegou o dia marcado para a execução da sentença. O desditoso conseguiu obter dos seus juízes que lhe fosse dado fazer oração junto à ermida, e ali fazer ouvir mais uma vez - a derradeira! - as harmonias do seu violino.

Já o carrasco espera que lhe entreguem o prisioneiro, para executar a justiça dos homens; já os frades e os religiosos entoam os salmos dos moribundos ...

Depois de ter ajoelhado em oração, o infortunado peregrino repetiu a música dolente que tempos antes lhe valera a mercê da santa, - a que ia dever agora a morte, o triste suplício da forca. Assombro dos assombros, milagre dos milagres, maravilha das maravilhas! Santa Comba descalçou o outro pé, e com um sorriso divino, em face da multidão deslumbrada, ofereceu o chapim de oiro, que lhe restava, ao tocador de violino! ...

Em vez da execução que estava preparada, logo se improvisou uma luzida festa, de uma alegria sem mancha; e, ao som de adufes e castanholas, houve danças e descantes; foi um dia de folguedo.

E o peregrino pôde seguir livremente o caminho da sua choupana, levando consigo um precioso talisman, uma riqueza: -os chapins de oiro de Santa Comba. Com eles presenteou a noiva, que foi encontrar florescente de saúde...

Santa Comba! -Que saudades!... jantares na modesta casinha da residência, em que a mãe e as irmãs do abade tôdas se afadigavam, amimando os convidados, muito felizes, muito satisfeitas... Festas na igreja, recamadinha de luzes, e rescendente de flores, com música e coros, e sermão do padre Cónego... Leilão de prendas no adro... baile na loja espaçosa do tio Zé da Estrada... E aquele lindo domingo de Páscoa em que o padre Gonçalo estreou a estola nova, branquinha, bordada a oiro!... E o baptizado do filho do regedor!... Santa Comba!...

Foi em Santa Comba, da boca da caseira velhinha do Dr. Francisco Maia, da boa tia Eufémia, que nos foi dado ouvir, numa tarde de Agosto, a lenda encantadora que aí fica, desataviada de enfeites...

Santa Comba! ... Que saudades!...»

 

Fonte: Delfim Guimarães, Santa Comba, in In Memoríam de Delfim Guimarães, 1872-1933, 1934

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