Lenda do Rio Lima
(Continuação)
Surgiu, então, a sua identificação como Lethes da mitologia, que tinha o
condão de provocar em todos os que o transpusessem o olvido do passado e
da própria pátria.
Campos Elísios passaram, em consequência, a apelidar-se os que
circundavam, isto é, as suas margens.
Mais semelhantes a jardins, no conceito mitológico; onde, segundo o
testemunho de Políbio, só durante três meses do ano as rosas não
floriam.
E
ainda Estrabão que nos diz ser esta a terra perfeita por qualquer
fugitivo de Roma.
Dentro deste condicionalismo, aqui chegaram um dia, sob o comando de
Décios Junos Brutos, as legiões romanas, com as altivas águias a
tremularem nos pendões.
Vitoriosas haviam pisado as terras que estavam para sul e propunham-se
prosseguir.
Desciam, a justante, dos lados de Ponte de Lima e teriam iniciado a
jornada desse dia em Vitorino das Donas:
"Daqui saiu Bruto pelos campos tão celebrados com o nome de Elysios a
procurar lugar em que com o se exército pudesse vadear as cristalinas
águas do Lethes tão respeitadas com a fabula virtude de encantadoras." (João
de Barros, Antiguidades de Entre Douro e Minho).
Encontravam-se no lugar da Passagem e fácil pareceu ao comandante a
travessia.
Nesse sentido emitiu ordens, mas encarniçada se revelou a resistência
dos soldados, conhecedores como eram dos poderes sortílegos atribuídos
às suas águas.
Não perdeu ele a serenidade nem achou conveniente procurar convencê-los
por meio de palavras.
Tomou a bandeira, ergueu-a ao alto, transpôs o vau e, já da outra
margem, a muitos chamou pelo nome e incitou a seguirem-lhe o exemplo.
Por esse meio os convenceu de que, afinal, não era verdade o que a lenda
propalava.
Assim exaltado nos advém, das mais longínquas eras, o fascínio deste rio
que até aos nossos dias tem sido cantado por todos quantos puderam
contemplá-lo.» |