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Decorreu apenas um anno. É grande a azafama no palácio dos Mendonças, em
Lisboa. O dono da casa vai finalmente participar a toda a côrte estar
justo o casamento de sua filha, herdeira de seus grandes haveres e
nobreza, com o único parente que poderia continuar aquella representação
na mesma varonia.
As instancia do Rei, e todas as rasões heráldicas da família não tinham
por muitos mezes conseguido resolver D. Ruy a julgar-se indispensável
para conservar sem quebra uma raça de cortezãos.
E nunca o resolveriam certamente essas considerações. Estou até em
afirmar que poderá muito mais com elle a beleza magestosa da prima, e
não menos a esperança de uma vida com fausto e poderio. As riquezas do
oriente iam perturbando as imaginações, e os netos dos cavalleiros da
Ala dos Namorados necessitavam preparar-se com tempo no exagero do luxo
e dos prazeres materiaes, para darem de si como presente á sua terra
esses grandes senhores que haviam de entregar um dia a Castella o reino,
conquistado ás lançadas pelos seus rijos antepassados.
(...) Vai grande azafama no palacio dos Mendonças. As salas enchem-se de
convidados, e todos esperam contentes ou invejosos a noticia formal de
estar satisfeita a prosapia do neto dos soberanos de Biscaia. Só o noivo
é quem falta ainda.
( ... ) Vai grande tristeza no palacio dos Mendonças. Morreu de repente,
ao entrar para o coche, D. Ruy, o perjuro.
(...) Desde essa noite em diante começou a apparição do Galgo preto nas
margens do rio Lima!
A sua alma ha de ser negra enquanto as águas correrem!
*
Leitor ousado que te ris da crendice popular, ouve-me por piedade. Se
alguma vez fores à beira Lima, não faças juras fataes sobre as aguas
correntes. Naquelle rio escondem-se terríveis segredos, e lá anda pelo
norte, espalhado em certos olhares, esse algo subtil que não provem do
ceo.
Por piedade, sobre as aguas correntes não faças juras fataes! |