Lenda do Galgo Preto
«Quando EI-Rei D. Manuel foi a Ponte do Lima levou na comitiva um
galante moço, a que muito se affeiçoára, por nome D. Ruy de Mendonça.
Dividiram-se os cavalleiros do sequito, luzido e numeroso, pelas casas
dos fidalgos; e coube a D. Leonel de Lima albergar o escudeiro valido.
Era D. Leonel de honrada estirpe e ainda aparentado, segundo diziam, com
a família dos viscondes de Villa Nova da Cerveira; mas pobre, e
malavindo com os parentes, pois casára à sua vontade (conforme o dizer
dos linhagistas) com a filha de um cavalleiro, cujo nome não andava nos
livros de EI-Rei, filha que houvera de uns amores em Arzilla com uma
sectaria de Mafoma. Era uma santa, diziam; e talvez fosse. Contudo, se
alguém mais perspicaz attendesse ao seu olhar de certas occasiões, e
reparasse como por vezes a sua mão nervosa se contrahia, adivinhava logo
que naquella natureza alguma liga houvera que não provinha do ceo. Era
talvez o sangue da avó moira a referver-lhe nas velas, da avó, que,
segundo cochichavam as mulheres de alguns velhos homens-de-armas, fôra
grande mestra em bruxedos e feitiçarias.
Ficar D. Ruy de Mendonça para logo preso de amores a Beatriz admirou de
certo muito ás netas dos infanções e ricos-homens, que requintavam em
galas e louçanias para agradar ao moço cortezão, e chasqueavam soberbas
da neta da africana; mas não era justo o reparo. A grandezas de luxuosa
fidalguia, a primores de elegancia e opulência estava o escudeiro
habituado; nesse gencro não podia encontrar na vilia coisa que o
espantasse.
Preso de amores ficára D. Ruy, e ainda se não atrevera a confessal-o;
por isso era maior o encantamento em que viviam os dois. Mas o amor é
como que o ultimo brinco da gente moça, e alguma coisa traz de certo das
contradicções da meninice. As creanças são tanto mais felizes com o
brinquedo, quanto maior é o segredo do seu engenho; não descansam porém
se o não partem, para satisfazer a curiosidade, e, ao approximar-se o
desvendar do mysterio, redobram de alvoroço, não reparando que vão assim
estragar o que havia de melhor no entretenimento.
Um dia ao entardecer encontraram-se ambos, ao fundo da modesta horta
banhada pelo rio. Era a vespera da partida, EI-Rei voltava à côrte, e a
D. Ruy forçoso era acompanhal-o.
Estavam tristes e scismadores; talvez o coração lhes presagiasse que
seria aquelle o derradeiro crepusculo em que assistiriam juntos ao
apparecer das estrelas, a essa especie de saudação garrida que a noite
manda aos que têm a cortezia de a esperar com respeitosa affeição.
Talvez; Mas nem por isso eram menos felizes: ha contentamentos e
tristezas que andam tão confundidos no coração!
Como se quebrou este enleio dos dois enamorados, não o diz a lenda, que
só nos transmittiu as ultimas phrases do dialogo que após elle tiveram;
phantasie cada um, como as suas lembranças lho consentirem, e, se quizer
imaginar com mais probabilidades de acerto, vá sentar-se na relva à
sombra das duas grandes arvores que estão no sitio, e são ainda as
mesmas que presenciaram a scena, a acreditar no asserto do povo. Eu por
mim acredito.
A
tradição conservou apenas o final do colloquio, e esse deve ser textual,
porque toda a gente o conta do mesmo modo:
-Juras? -perguntou Beatriz.
-Juro.
-
E atreves-te a jurar sobre as aguas, correntes? - insistiu a donzella,
faiscando-lhe no olhar esse não sei quê da sua natureza que não provinha
do ceo.
-Juro! -confirmou o mancebo, estendendo as mãos para o rio -e se eu
faltar seja negra a minha alma enquanto estas aguas correrem!
(...) Vai grande azafama no palacio dos Mendonças. As salas enchem-se de
convidados, e todos esperam contentes ou invejosos a noticia formal de
estar satisfeita a prosapia do neto dos soberanos de Biscaia. Só o noivo
é quem falta ainda.
(
... ) Vai grande tristeza no palacio dos Mendonças. Morreu de repente,
ao entrar para o coche, D. Ruy, o perjuro.
(...)Desde essa noite em diante começou a apparição do Galgo preto nas
margens do rio Lima!
A
sua alma ha de ser negra enquanto as águas correrem!» |