A Raiva do Alva
Corre em Pombeiro da Beira uma velha
história sobre uma disputa entre três rios portugueses nascidos na
serra da Estrela: O Mondego, o Alva e o Zêzere.
Nascidos da mesma mãe, viviam os três
irmãos, serpenteando pelas vertentes, tranquilos e alegres, amigos e
companheiros. Passavam os seus dias mirando-se cada um na limpidez
das águas dos outros e jogando às escondidas nas gargantas, furnas e
sorvedouros da gigantesca mãe.
Certa tarde, porém pela noitinha,
envolveram-se em azeda discussão, ao que parece motivada por
arrogância de valentias. Trovejaram rivalidades e prometeram-se
romper as prisões de infância, acabando por desafiar-se para uma
corrida cuja meta seria o corpo enormíssimo do mar: o primeiro que
lá esbarrasse seria o melhor de todos os três!
Qual deles descobriria melhor o caminho?
Qual conseguiria desenvolver maior barulho e força? Qual dos três
seria o primeiro a oferecer as sua doces águas às salgadas águas do
mar? Era o que iria ver-se!
O Mondego, astuto, forte e madrugador,
levantou-se cedo e começou a correr brandamente para não fazer
barulho. E sem levantar suspeita foi escorrendo desde as vizinhanças
da Guarda, pelos territórios de Celorico, Gouveia, Manteigas, canas
de Senhorim. Na Raiva, onde os primos vieram cumprimentá-lo,
robusteceu-se com eles e dali partiu na direcção de Coimbra, depois
de ter atravessado ofegante as duas Beiras.
O Zêzere, porém, estava alerta, e, ao
mesmo tempo que o Mondego o fez, começou a mover-se oculto no seu
leito de penhascos, enquanto pôde. Foi direito a Manteigas, onde
perdeu de vista o irmão. Passou também perto da Guarda, desceu
correndo até ao Fundão e, de repente, desnorteou, obliquando para
Pedrógão Grande. Quando deu por si, no meio daquela louca correria,
tinha atravessado três regiões e estava ainda em Constância. Aí,
cansado e desesperado, vendo-se perdido e sem hipótese de alcançar o
ma, abraçou o Tejo e ofereceu-lhe as suas águas.
O Alva, poeta sonhador, entreteve a sua
noite contemplando as estrelas. Adormeceu por fim, placidamente,
confiado no seu génio, e quando acordou, estremunhado, era manhã
alta. Olhou em volta e viu os irmãos correndo por lonjuras a perder
de vista. Que fazer agora? Que imprevidente fora! Mas… remediar-se o
desastre!!! E o Alva atirou consigo de roldão pelos campos fora,
rasgou furiosamente montanhas e rochedos, galgou despenhadeiros,
bradou vinganças temerosas. E quando julgou estar a dois passos do
triunfo… foi esbarrar com o Mondego, que há horas já lá ia, campos
de Coimbra fora, em cata da Figueira, onde lançaria no seio maternal
do oceano, ganhado assim a tão discutida corrida.
O Alva esbravejou e com a sua furiosa
zanga atirou-se ao irmão, a ver se o lançava fora do leito. Quando
se sentiu impotente ante a serenidade majestosa do outro, espumou de
raiva. E o Mondego, rindo, engoliu-o de um trago.
Ao memorável local de encontro, a foz do
Alva, passaram as gentes a chamar-lhe Raiva em memória deste caso «tremebundo».