Lenda de
Nossa Senhora do Espinheiro (Seia)
Nesses
tempos da moirama, havia em terras lusitanas um
cavaleiro andante, audaz e guerreiro, destemido e
ousado.
Rezam as
crónicas que foi famosa sua memória... Rebrilhou em mil
batalhas sua espada fulgurante, sulcou rasgões de sangue
nas fileiras mouriscas e, em Ourique, dominou,
intrépido, cinco reis sequazes de Mafamede!...
Queimado na
energia agreste do vento e do sol, cavaleiro medieval,
sua alma ardente, sonhadora, caldeou-se indómita ao
fragor bélico e ao luzir do aço.
Naquela
manhã de Setembro, de aragem fria para as bandas da
serra, D. Afonso Henriques, rei de Portugal, cavaleiro
andante das terras de Viriato, apeou-se do corcel às
portas de Sena.
Numerosa
cavalgada o segue: homens de armas, infantes, fidalgos
da côrte, os grandes todos de Portugal jovem...
O
Alcaide-mor de Sena entrega, em salva de prata, as
chaves pesadas do castelo heróico que Fernando Magno
ergueu e foi baluarte contra os mouros. Rude e
sinceramente, o Alcaide, genuíno ramo de Viriato, beija
as mãos do primeiro rei de Portugal.
Ele sabia-as
por serviço de Deus e da grei, banhadas em sangue, no
silêncio dos arranques bravos das pugnas, realizando no
chão dos lusos o milagre da sonhada independência...
A vida da
Pátria preparava-a a espada de D. Afonso Henriques
nessas horas imortais de altura, de sacrifício e de
sangue.
Porque vinha
de Guimarães às terras de Sena tão luzido
acompanhamento? Era a serra dos Hermínios abundante em
caça.
E o rei de
Portugal, afeito às pelejas mouriscas, era certeiro nas
flechas e rápido nas lançadas. A caçada prometia
abundância e variedade. Eram destros os atiradores,
leves os corcéis e ágeis os rafeiros...
À comitiva
juntaram-se os fidalgos de Sena. A trepada dos montes
escalvados e íngremes decorria em folgazã alegria e mais
de um caçador emérito experimentara já pelos relvados e
fraguedos a certeza da sua dextra.
A comitiva
dispersa-se pelas encostas da serra, desce aos valados,
embrenha-se nos pinhais, bate as urzes e escala os
escuros fragões... Surge a caça abundante e nédia e
alegram-se os caçadores...
O olhar dos
vimaranenses perde-se na vastidão imensa, deslumbra-se
com a distância e até o rei de Portugal se sente
remoçado e fresco, respirando ofegante, longe das hostes
inimigas transtaganas e aqui mais perto de Deus que
fortalece o seu braço.
Caminha
agora na planura. Segue de perto rastos de caça. Vai só,
atento o olhar de lince no animal que persegue. Mas, ó
céus! De repente o rei D. Afonso Henriques estaca diante
dum silvado de agrestes espinheiros... O que faz ficar
assim estupefacto o rei de Portugal? É uma alcateia de
lobos corpulentos, boca escancarada, goela hiante,
dentes sanguíneos e famintos, olhos a fuzilar, que
espreitam...
Impossível
fugir às feras, impossível clamar por socorro dos da
comitiva, dispersos pelos pinhais e ravinas. Neste
apertado transe, D. Afonso Henriques implora à Virgem
dolorosa, pelas dores e martírios que sofreu tendo seu
bem amado Filho nos braços, descido da Cruz, a
libertação de tão iminente e cruciante perigo.
E os lobos,
uivando ferozmente, retiram-se, arrastados por força
misteriosa e invisível, para as penedias gigantescas da
serra onde têm suas escuras cavernas.
Mais uma vez
a Virgem Maria tinha protegido maternalmente com a sua
poderosa mão e abrigado na orla do seu manto, o grande
rei português. Para perpétua memória de facto tão
insólito e miraculoso, D. Afonso Henriques mandou
levantar a ermida de Nossa Senhora do Espinheiro que se
ergue, donairosa, no planalto, a meio caminho entre Seia
e o Sabugueiro, a aldeia mais alta de Portugal.
O cenário é
rude a mil metros de altura, eriçado de penhascos,
beijado pelo vento.
No Inverno,
quando a neve rebrilha nos píncaros das massas
ciclóplicas, ela vem docemente cobrir com diáfano manto
o telhado da ermida românica da Senhora do Espinheiro.
Lá se adora
a Mater Dolorosa, imagem artística e veneranda,
esculpida no granito duro, desafiando no volver dos
séculos, em plena serra, os furores da tempestade e o
rugir da procela.