Ali muito perto de
Celorico da Beira, na aldeia de Açores, existe uma
antiga e bela igreja gótica que tem por patrona
Nossa Senhora dos Açores. Lá dentro, três antigos
retábulos rememoram milagres, os que vou contar e o
povo guardou na primitiva ermida, que construiu, e
um rei comemorou na igreja que sobre ela erigiu.
Um dia, andava um pastor
a pastorear as suas vacas, quando uma delas e
tresmalhou e caiu a uma lagoa. Atirou-se o homem à
água, sem pensar que não sabia nadar, para tentar
recuperar o animal. Aflito, em riscos de se afogar,
suplicou veemente o auxílio da Virgem, e tanta fé
pôs no seu pedido que Nossa Senhora apareceu-lhe,
salvando-o a ele e à vaca.
Radiante e agradecido à
Senhora que o salvara, correu o pastor à aldeia a
contar o milagre, e o povo imediatamente acorreu ao
local, com a ingenuidade e credulidade que é seu
apanágio. Segundo conta a lenda, no local do
salvamento miraculoso, semiescondida entre silvas,
encontraram uma pequena imagem da Virgem. E, para
guardarem a imagem e perpetuarem o milagre, ergueram
ali uma pequena ermida.
Em pouco tempo, o local
e a ermida tornaram-se ponto concorrido da região,
porque muitas foram as mercês e milagres operados
pela imagem devota. Tão longe foi a sua fama que
chegou a terras de Espanha.
Reinava então em Espanha
um rei desesperado. Casado há muito tempo, não
conseguia a dádiva de um filho que o perpetuasse
como homem e continuasse como rei. Assim cheio de
fé, no seu palácio, implorou `Virgem daquela aldeia
longínqua de Portugal a benesse de um herdeiro. E
também a ele a Virgem concedeu a mercê pedida, só
que – sabe-se lá por que pecado antigo – a criança
nasceu aleijada e extremamente fraca.
No meio da imensa
alegria pelo filho nascido, o aguilhão de dor
provocado pela enfermidade da criança não fez
esmorecer a fé daqueles reis. Pegando no menino
recém-nascido, iniciaram uma romagem, morosa e
dolorosa à ermida da Nossa Senhora das suas
devoções. Iam agradecer o herdeiro e suplicar
remédio para a doença daquela criança sua esperança,
esperança do reino.
Durante a viagem, porém,
a criança, que era tão fraca, morreu. Quiseram tirar
o corpito dos braços da Rainha, mas ela, cheia de
fé, continuou a sua jornada com o filho nos braços:
tinha prometido a Nossa Senhora que só a ela o
entregaria.
Chegada a comitiva à
ermida, armou-se o acampamento real. A Rainha foi
logo depor o corpo do infante no altar da Virgem,
enquanto o Rei ficava dando ordens para que fizessem
as exéquias.
Sucedeu, entretanto, que
um Monteiro do Rei, transgredindo as ordens, soltou
o seu açor. Num segundo, a bela ave sulcava os céus
em liberdade, voando para longe, para o alto dos
penhascos, de onde jamais voltaria sem dúvida. O
Rei, furioso, ordenou que cortassem o braço do
Monteiro transgressor.
Este, por sua vez,
convicto da sua falta, implorou protecção à Virgem,
arrependido sinceramente do acto irreflectido.
Perante a sua fé simples, a Virgem não faz esperar a
resposta: inverte o voo ao açor, que, descendo em
círculos, vem pousar na mão que ia ser cortada,
renunciando à liberdade que ansiara.
Ao mesmo tempo, dentro
da ermida onde a Rainha velava o corpo do infante,
uma luz desceu sobre a criança, que abrindo os
olhos, sorriu à sua volta, tornando à vida, livre do
defeito com que nascera. A uma grito da Rainha, o
Rei, que observava o insólito facto do retorno do
açor, entrou correndo na ermida, atempo de
presenciar os primeiros revagidos de seu filho.
Louco de alegria, o Rei
ali mesmo prometeu erguer uma igreja, mais digna da
miraculosa Senhora. Deste modo se construiu a igreja
hoje existente, e que, em memória do duplo milagre,
ficou a chamar-se de Nossa Senhora dos Açores.