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Como interpretar a simultaneidade?
Como interpretar a simultaneidade cíclica do pião e da quaresma?
Jean Chateau(1)
diz que muitos dos jogos têm origem em actividades
mágico-religiosas. O tambor, entre os primitivos, tem a função religiosa
e mágica. O papagaio de papel, veio do extremo oriente onde representava
a alma. A boneca, já foi objecto de culto. O pião, também. Era um dado
giratório de adivinhação.
Mas a sobrevivência de elementos mágico-religiosos neste jogo não
explicam capazmente a coexistência cíclica da quaresma e do pião.
Quanto a nós, o estado de interiorização e acabrunhamento, vivido por
toda a comunidade, perante os mistérios insondáveis da Paixão de Cristo,
favorecia o estupor ilínxico originado pelo turbilhão giratório. O
prazer da fuga do mundo real propiciado pela interioridade mística do
período quaresmal, encontrava terreno favorável na prática do velho jogo
que acrescentava, estranhamente esse prazer.
A destruição dos piões, intitucionalizada no jogo, para além da resposta
controlada a uma agressividade original e persistente, parece estar
relacionado com outro jogo do fim da quaresma: - o jogo dos panelos.
No dia de Pascoela, os vizinhos e conhecidos entravam nas casas uns dos
outros e traziam para a rua os panelos e cântaros de barro furados,
esbotenados ou rachados, que as donas de casa iam guardando durante o
ano. Depois do almoço, no largo fronteiro, atiravam-se as panelas de mão
em mão, até que um descuido voluntário as transformasse num monte de
cacos, por entre risadas e xistes de participantes e assistentes.
Interessante é a discrição que o Abe Laborde(2)
faz deste jogo, referido ao
Bidache no Béarn com o nome de «Jeu de la Toupiole».
Arnold van Gennep(3)
refere que, em França, o quebrar voluntário de louça
de barro constitui sempre uma prática com sentido mágico actual ou
originário (às vezes, por falta de razões expressas, difícil de
concretizar e definir se profilático, multiplicador ou propiciatório),
mas geralmente em relação com a ideia de felicidade (porte-bonheur).
A similitude morfológica do pião com o panelo de barro e a destruição
final a que são submetidos nas formas lúdicas observadas, podem estar
relacionadas com ritos de passagem de um estado a outro estado, de uma
situação a outra situação, de um período a outro período como é o caso
do quaresmal. |