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Nas terras altas do planalto Ibérico, a Nordeste, de Trás-os-Montes às
Beiras Interiores, até ao
Alentejo, no Sul, mais
isoladas e preservadas, onde a canção é ainda presentemente de tipo arcaico, de
linhas severas, mostrando não raro reminiscências modais e entonações microcromáticas,
prevalecem os velhos instrumentos do ciclo pastoril: em
Trás-os-Montes, a gaita-de-foles (e numa área restrita, a Nordeste, o tamboril e
flauta tocados por uma só pessoa) e o pandeiro; nas Beiras, o adufe que serve a
música tanto das ocasiões lúdicas como das ocasiões cerimoniais, festas
religiosas, e a própria liturgia popular, dessas regiões.
Esta distribuição poderia parecer que aponta uma coincidência entre o carácter
da
cultura e da música, por um lado, e dos instrumentos, pelo
outro, nas duas áreas. Contudo, encontramos a
gaita-de-foles com muita vitalidade em todo o Noroeste - aliás com um
repertório mal ajustado ao instrumento - a acompanhar as
festas religiosas populares, procissões, a visita
pascal, etc., (da qual são nitidamente excluídos, pela força do costume,
precisamente os cordofones); e simetricamente, vemos a Leste a
viola, embora rara, que por seu turno acompanha um
género lúdico local aparentado com a canção das terras ocidentais.
Parece pois que os cordofones populares em geral se podem considerar
instrumentos
específicos da música profana e de expansão lúdica ou lírica,
com exclusão de quaisquer usos cerimoniais; ao passo
que as outras categorias e designadamente a gaita-de-foles, o
conjunto do tamboril e flauta, o pandeiro quadrangular (e
mesmo toda a série dos idiofones menores e outros
"barulhentos"), ao mesmo tempo que servem as músicas das festas e danças
profanas, são contudo também admitidas, sem objecção, em
funções mais austeras, como instrumentos cerimoniais e
mesmo, em certos casos (muito raros) sagrados.
Este carácter dos cordofones, que detectamos nos casos actuais, parece também
afirmar-se historicamente: a viola foi o mais importante dos
instrumentos trovadorescos, para as suas canções
líricas; ao longo dos séculos, ela vê-se através de textos e imagens
iconográficas, sempre em ocasiões estritamente profanas,
danças e diversões, serenatas, cantares amorosos, para
entretenimento de lazeres ou a enganar tristezas.
Na Ilha da Madeira, têm grande relevo, como instrumentos para ocasiões lúdicas e
de
festa, três cordofones da família das violas: a viola, o rajão
e o braguinha. E como espécie cerimonial distinguimos
as grandes castanholas usadas na Ribeira Grande, na missa do
Parto, no Natal.
Também relativamente aos Açores se podem estabelecer duas categorias
fundamentais
de instrumentos musicais populares: instrumentos de expansão
lúdica e instrumentos cerimoniais.
Entre os primeiros distingue-se a viola "da terra" ou "de arame"- a mais
importante
espécie do arquipélago - que se usa em todas as ocasiões
festivas, sozinha ou a acompanhar o canto das modas e
descantes, nos balhos, nos serões e desfolhadas, nas romarias, de
caminho, em casamentos, a entreter lazeres e saudades, etc. Os
instrumentos cerimoniais são fundamentalmente os que
figuram nas Folias do Espírito Santo, que se fazem ouvir
sublinhando ou acompanhando os cantares próprios de certos
passos dessas complexas celebrações, aliás com cenários
muito variáveis de Ilha para Ilha.
O instrumental da Folia encontra-se em muitos sítios em vias de extinção e em
seu
lugar - e aliás desde há largos decénios - com aceitação
crescente, usam-se bandas ou filarmónicas.
De referir ainda que as violas e alguns cordofones usam-se também por toda a
parte
nos balhos que têm lugar nas casas dos mordomos, nos cortejos
dos bezerros e outras ocasiões de carácter mais
claramente festivas que, apesar disso, se integram no complexo
cerimonial das celebrações do Espírito Santo. |