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Rogas (2)

O dia grande aproximava-se. Na véspera, o rancho das pessoas rogadas (roga) punha-se a caminho da quinta. Velhos e novos, homens e mulheres, rapazes e raparigas, pais e filhos partiam como se fossem para uma romaria: «o grande sonho da terra em todo o ano é entrar numa roga». Vinham dos limites serranos do Alto Douro, ou seja da Beira Alta e de Trás-os-Montes e, mais concretamente, dos concelhos de Vila Real, Vila Pouca de Aguiar, Ribeira de Pena, Boticas, Mondim de Basto, Tarouca e outros mais. Os homens e os rapazes, em camisa, enfiavam o casaco, o colete e, por vezes, o saco dos seus poucos pertences num pau comprido, que assentavam no ombro. As mulheres e raparigas carregavam à cabeça ou no braço a cesta, coberta com um xaile de franja, ou a taleiga, com a merenda e alguma peça de roupa. Muitos deles caminhavam descalços. Iam em bando: o conjunto musical (trempe), constituído geralmente por três instrumentos, um harmónio ou concertina, um bombo e uns ferrinhos, mas que podia também integrar uma gaita de beiços, uma pandeireta, uma caixa, uma viola, uma rabeca, uma guitarra, uma gaita de foles e uma tíbia; atrás, em magote, o acompanhamento, a cantar, a dançar, a saracotear-se. Cantavam as raparigas:

- Nasci p’rás bandas da Serra,
Sou serrana, tostadinha…
Por dote tenho mil fragas
Sou tão rica e pobrezinha.

Continuavam os rapazes:

- Mais pobre que tu sou eu,
Fez-me o destino pastor…
Seria dono do mundo,
Se meu fosse o teu amor!

E, depois, todos juntos:

O meu amor é da serra,
É da serra, é serrano…
Vale mai-lo amor da serra
C’o da ribeira magano. 

Paravam aqui e ali, nas encruzilhadas e nos largos das povoações, dançando a cana-verde, o fandango, a chula e o malhão. Gritavam, assobiavam, diziam chalaças e riam estrondosamente. Os rapazes aproveitavam a excitação geral para abraçarem e apalparem as raparigas. Nas tascas molhavam a voz e comiam o farnel trazido de casa. Quando passavam junto do portão ou das casas de uma quinta, redobravam de alegria. Chegavam, por fim, ao seu destino à tardinha, depois de terem palmilhado, por montes e vales, por estradas e carreiros, por caminhos e atalhos, dezenas e dezenas de quilómetros. Os que podiam chagavam de comboio ou de camioneta de carreira. Alguns chagavam mais cedo uns dias, para arranjarem patrão certo. Ao chegarem, era-lhes distribuído o jantar. Alojavam-se nos cardenhos. Alguns, sobretudo os mais novos, instaladas as suas coisas, ainda sentiam forças para bailarem pela noite dentro.” (in Alto Douro – terra de vinho e de gente, A.L. Pinto da Costa, Edições Cosmos, Lisboa 1997, pág.287 e 288)

Outro texto sobre rogas (in Etnografia Portuguesa, Dr. José Leite de Vasconcellos, Vol. V – pág.628)
 

 

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