GERAS - Grupo de Etnografia, Estudos Regionais e Artes Tradicionais de Santarém

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Rancho de Riachos: novo disco, 
outra forma de apresentação

                                                                                                                                    H. Nelson Ferrão

            Pela mão amiga de Joaquim Santana chegou ao meu conhecimento  a mais recente edição do disco digital de música do Rancho Folclórico “Os Camponeses”, de Riachos. Uma  cuidada edição que revela a atenção com que este responsável soube “levar a carta a Garcia”, aproveitando muitos dos “trunfos” que ao Rancho têm dedicado o seu empenho e a sua disponibilidade.

            Algumas inovações que parecem ser interessantes revelar, já que, no meio folclórico e na zona do Ribatejo este tipo de cuidados não têm estado nas preocupações  dos discos editados até agora e que sejam do meu conhecimento. Quando todos os ranchos (ou quase) só querem é gravar e pronto, aqui temos um caso diferente; por isso este meu atrevimento  e o reconhecimento em  falar deste inovador projecto.

            Os ranchos folclóricos (RF) sempre conviveram com a indústria da cultura em Portugal, numas épocas mais forte, noutras bastante mais débil e noutras com alguma indiferença de parte a parte.

            Raros são os RF que têm sabido tirar partido das oportunidades que, por vezes, existem em termos de mercado, não só porque se afastam  dele e dos seus segmentos de oferta, mas porque também não o querem nem se lhe dão a conhecer. E nestas  circunstâncias já se sabe qual é a regra do jogo: quem não é visto não existe (ou quase)...

            Ora, neste aspecto, o RF Riachos tem sido um exemplo a nível nacional; é certo que muito é devido à mão providencial, estabilizadora, rija, compreensiva, empenhada, do seu timoneiro, atento às novidades... Mas também é preciso ir trabalhando uma capacidade inerente àquele grupo de pessoas, sobretudo jovens, que, às fornadas vão renovando e actualizando a vida do próprio grupo, na realidade mesmo e não só  nas palavras, como acontece com quase todos...

            Este parece um arrazoado dispensável de palavras, mas veremos já que isto anda tudo ligado. Não é só este CD e a forma como ele se nos apresenta agora, mas têm sido as oportunidades aproveitadas  ao longo dos anos e os conhecimentos relacionais que garantem confiança, crédito, valor acrescentado, misturados com alguma irrequietude, inquietação, riscos muito calculados: estou a pensar, apenas como exemplo, 1) na participação de algumas melodias num CD (Musical Traditions of Portugal)  sobre  diferentes tipos de musica em Portugal e que se integrou na divulgação de um projecto de World Music e 2) a participação no  espectáculo multi-género “Raízes Rurais, Paixões Urbanas” (Fado, Folclore, Jazz...), concebido pelo encenador de teatro Ricardo Pais e que teve grande projecção nacional (Porto, Lisboa, Viseu) e internacional (Paris).

            Como se percebe, é este tipo de pequenas coisas que fazem a diferença. E vou continuar com elas: começando pela imagem de capa  do CD.

            É, de facto, uma capa diferente, esteticamente com preocupações que tenta ultrapassar o fechado campo folclórico, sem, contudo, sair dele. Há côr, identificação do objecto, fixo quanto baste, mas também dinâmico, sugestão de movimento, através de um efeito estético que funciona bem  pelo seu conjunto e que nos remete para outros ambientes, intentando uma ruptura com o habitual (kitch) do pensamento dos RF.

            O produto é uma oferta global  e o seu aspecto apelativo no primeiro contacto é muito importante para chegar ao publico, embora quase sempre descurado. A questão passa a ser: que mensagem eu quero transmitir aos outros? Como eu quero que os outros me vejam?

            E o design de todo o CD faz questão de informar  o que deve ser conhecido do público -  quer pelas fotos quer pelos textos. Apesar de só ter as 4 páginas habituais dos CD’s foi possível apresentar dados sobre a forma como as cantigas são interpretadas e quem as toca e canta. A César o que é...

            É claro que esta é uma inovação bem recebida e é a forma de valorizar o colectivo do grupo, através dos elementos  que por lá passaram (e ainda continuam) ...

            Podemos acompanhar as 19 melodias com uma marca de quem as toca e canta, facto que valorizou sobremaneira  a edição, pois que as canções foram interpretadas por vozes de diferentes solistas, o que poderá querer dizer que se aproveitou o tipo de voz para a respectiva canção, valorizando significativamente o conjunto. E isto só é possível graças à inovadora perspectiva de aproveitamento de solistas que têm passado pelo RF: o Carlos Maia, a Célia Barroca, a Teresa Tapadas e a Patrícia Real...

            Para além deste aspecto, que revela um bom sentido de oportunidade e de rasgar novos horizontes, devemos também referir a apurada ficha técnica: identificação dos fandanguistas, dos tocadores, a direcção, as colaborações (do mais “rodado” João Chora) e os apoios/patrocínios com envolvências relevantes.

            Quanto ao conteúdo musical percebe-se uma mistura cuidada (com preocupações de fugir à “marca”  viciada das gravações dos RF) e uma programação equilibrada das peças musicais que vão desfilando aos nossos ouvidos; contudo, a proposta possui ainda potencialidades de poder melhorar o nível de alguns instrumentos musicais (a audição da cana e dos ferrinhos parecem excessivos...). Para além da programação das vozes por cada tipo de canção, uma referência muito positiva à audição  do som do sapateado na dança do Fandango, que faz jus à marca (mais uma) de décadas dos seus característicos bailadores...

            Eis, pois, um disco a ouvir com atenção, porque se esforça por não ser mais um. Agora impõe-se  continuar a beneficiar  do privilegiado conhecimento relacional que as gentes de Riachos possuem para poder ser comercializado potencialmente em segmentos de mercado interessados em trabalhos de qualidade acima da média.

            Um exemplo de valorização e elevação da fasquia da qualidade discográfica e o rasgar de horizontes para que o movimento folclórico deve olhar com atenção ... como experimentação de caminhos mais cuidados na indústria da cultura ...