GERAS - Grupo de Etnografia, Estudos Regionais e Artes Tradicionais de Santarém

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Encontro concelhio – os Ranchos de Santarém a tomar consciência

                                                                                                                                    H. Nelson Ferrão / GERAS

Uma Concentração-Festa de todos os Ranchos Folclóricos em cada sede de Distrito, um abaixo-assinado a implementar por cada grupo, a nível nacional, contra a situação que estão a viver, porque os Poderes Públicos ignoram os ranchos folclóricos e não lhes garantem o devido reconhecimento do seu trabalho, bem como o apoio para a continuação de uma escola de formação de instrumentos tradicionais e para fazer a história de cada rancho, foram algumas das importantes reivindicações saídas do Encontro de Ranchos Folclóricos do Concelho de Santarém, promovido pelo GERAS, no passado dia 10, em Santarém.

As queixas vieram de vários agrupamentos que afirmaram um sentimento generalizado de que os poderes públicos só os consideram nos períodos eleitorais, devido a interesses muito próprios, esquecendo-se de garantir um apoio sustentado e regular às suas actividades no resto da sua governação e que, agora mais do que nunca, estão a passar demasiadas privações, fruto do desinteresse e indiferença dessas entidades publicas.

Com a presença de 13 dos 17 agrupamentos do concelho (faltaram Abitureiras, Verdelho, Pombalinho e o da Coop. Lar Scalabitano), num total de 35 participantes, no Encontro foram debatidos assuntos à volta de três grupos de trabalho temáticos denominados "Historia do Movimento Associativo Folclórico e Recolhas", "Acções Culturais Inovadoras de Geografia Variável" e "Relações com os Poderes Públicos".

Foi reconhecido pela maioria que este um modelo de Encontro produziu respostas bastante mais produtivas para os interesses dos ranchos folclóricos, tendo cada um destes grupos de trabalho avançado com a criação (ou o interesse) de pequenos grupos de pessoas que irão promover a realização prática das ideias-base aqui surgidas.

A reflexão realizada pelos participantes quanto às "Relações com os Poderes Públicos" sustentou que estes Poderes ignoram  simplesmente o trabalho dos ranchos folclóricos em detrimento de outras manifestações culturais ou desportivas, mesmo ao nível do concelho.

Por isso, a urgência da implementação de um abaixo-assinado e da criação de uma rede de acções a nível nacional que promova grandes concentrações de Ranchos nas sedes de Distrito, junto aos Governos Civis, para esclarecimento público e por forma a mostrar os seus argumentos e tomada de consciência em  todo o país da grande injustiça que os responsáveis do poder político  têm feito a estas estruturas associativas, uma vez que existem perto de 2000 ranchos com mais de 45 membros cada um. No mesmo registo indicaram também a necessidade de isenções fiscais e outros benefícios para apoiar os agrupamentos: dedução do IVA nos instrumentos e trajes; isenção do pagamento de licenças para as suas actividades que agora são da responsabilidade das CM's; possibilidade dos trabalhadores poderem justificar as suas faltas quando representarem a região  no estrangeiro, através do Rancho...

Neste estado de coisas, os Directores dos ranchos também dizem ter a sua quota-parte  de responsabilidade, devido à desorganização em que se encontra o movimento folclórico concelhio, uma vez que esta região foi uma das primeiras a propor, há alguns anos, a criação de uma Associação que defendesse os seus interesses e até ao momento esse objectivo ainda não foi conseguido.

Estão ainda numa fase de reflexão, em que não desejam apostar numa Associação formal, como todas as outras do país, por ser muito mais pesada, pretendendo agora, ao contrário, apostar numa pequena estrutura informal, sem estatutos legalizados (Comissão?), para terem  uma maior agilidade junto das entidades do concelho; no futuro esta situação poderá entretanto evoluir para uma outra estrutura de âmbito mais alargado aos ranchos da região...

Uma outra proposta defendeu que os Poderes Públicos deveriam garantir um apoio associativo mínimo à existência de um rancho folclórico, embora isto pareça ser um pouco mais polémico, devido à equidade a estabelecer entre todas as  outras associações nas mesmas condições,  ao custo mínimo a acertar e às contrapartidas que  as entidades e as associações devem negociar... Matéria esta que ficou, assim, para um debate exclusivo, mas de necessidade urgente, bem como o aprofundamento e a compreensão por todos, sem equívocos, das razões porque os poderes públicos não têm nem estão a apoiar os ranchos folclóricos e continuam com alguma relutância em fazê-lo....

O grupo de trabalho sobre o “Associativismo e as Recolhas” constatou que os ranchos estão carentes de apoios logísticos nesta área, embora estejam em patamares diferenciados dessas necessidades. Realçaram ainda o interesse dos grupos (e a necessidade) de poderem ter as suas melodias passadas à escrita musical como forma de preservar o cancioneiro do concelho.

Por outro lado, para construir parte da história de cada grupo foi visto com muito interesse o apoio que possam ter para desenvolver esta acção e com este objectivo foi proposto que os ranchos preenchessem um  Inquérito aos Grupos de Música Tradicional apresentado há uns anos pelo Instituto de Etnomusicologia da U. Nova de Lisboa, pelo que se constituiu um pequeno grupo de trabalho para dinamizar o sucesso desta iniciativa, ficando já marcada uma reunião para o próximo mês de Setembro.

Quanto aos participantes que debateram “Acções Culturais Inovadoras”, em parceria, também ficou constituído um outro pequeno grupo de trabalho para promover uma Desfolhada, este ano, em local centralizado a definir, como forma de captação de novos públicos e de angariar apoios para esta iniciativa de maior  envolvência concelhia.

Este mesmo grupo de pessoas também se propôs desenvolver mecanismos para se colmatar a falta de tocadores de instrumentos musicais que os Ranchos apresentam, através da formação de tocadores de concertina ou harmónio prioritariamente, mas também não descurando os outros instrumentos que não estão a ser valorizados.

Uma das formas de conseguir novos entusiastas para tocar este tipo de instrumentos deverá ser através de estratégias que os ranchos deverão implementar junto dos alunos das Escolas do 1º ciclo, sensibilizando potenciais interessados ou promovendo aí oficinas de música e de dança.

Finalmente foram reconhecidas as boas capacidades da Internet para poder dar visibilidade gratuita aos agrupamentos do concelho, através da criação de uma caixa de correio electrónico e de um simples sítio (site) com informação sobre o grupo; constatámos que apenas metade dos ranchos possuem e-mail, pelo que este assunto será uma das próximas etapas a alcançar, sozinhos ou com o apoio de outras entidades (C.M.S., I.P.J., Inatel, R.T.Ribatejo...).

Esta foi mais uma iniciativa do recém-criado GERAS (Grupo de Etnografia, Estudos Regionais e Artes Tradicionais de Santarém) que se revelou importante, uma vez que justificou a oportunidade deste tipo de Encontro e que se prevê ainda mais lucrativo para o Movimento Folclórico, desde que cada rancho aceite participar em projectos e ideias com objectivos e interesses comuns, como parece ter sido este caso.

Como se pôde constatar também há outro tipo de trabalho a fazer, mais actualizado, desde que os Directores e os ranchos se consciencializem que devem sair rapidamente do grande fechamento sobre si próprios e abrir-se mais a outras ideias e a outras práticas que só lhes trazem vantagens, apesar de exigir outro tipo de organização e confiança, sob pena de adormecimento e das incompreensões se avolumarem...

Depois de terminados os trabalhos deste Encontro Concelhio, os Directores dos Ranchos aproveitaram para realizar uma outra reunião destinada a tomarem posição sobre a contraproposta de Protocolo feita pela Câmara Municipal, tendo ficado decidido apresentarem a sua nova contraproposta em próxima reunião com o Pelouro da Cultura.