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«A cozinha tradicional de Trás-os-Montes sempre há-de espantar os
seus admiradores que hão-de pensar ser impossível que das pedras das
suas montanhas resultem produtos com tamanho sabor. E da província
do lado, as verduras mimosas hão-de sempre ser ramalhete a dar cor,
gosto e tempero aos condutos ricos de carnes e peixe.
Ora Ribeira de Pena, também na gastronomia, se situa na zona de
confluência deste gulosos paladares. Não faltam, contudo, os
especialistas que fizeram as suas recolhas e as publicaram, para
grande alegria dos gastrónomos e para sossego dos que temiam ver
perder-se tantas e tão gostosas e tradicionais receitas, elas também
elementos da maior valia no património de um povo. (…)
Prato obrigatório, havia sempre carne assada, acompanhada com as
saborosas batatas criadas na terra. Mas não faltavam outros pratos
com carne, com realce para o cabrito e para a carne de porco, a que
se juntavam o bacalhau e as trutas dos rios das redondezas.
Uma menção especial para um prato que é referido por várias pessoas
mais idosas e que consistia em batatas cozidas, amassadas com as
mãos e a que depois se dava uma volta na frigideira ou no tacho com
rojões e respectiva gordura de conservação. Mas não menos gostoso,
porque o comprovámos ainda, era um cozinhado mais popular que se
obtinha, cozendo castanhas bem lavadas e apenas talhadas com batatas
descascadas e sal. As batatas ficam com uma bela cor castanha e
acompanham, imagine-se, com sardinhas assadas! São óptimas, e o
mesmo acontece quando o acompanhamento é feito com sardinha frita e
seu molho, em espacial quando a época do ano já nos traz sardinha
mais magra e seca.(…)
E que mais?
Cabrito assado, em especial pelas festas, quase só com o tempero que
ele trazia da serra, a bela galinha de cabidela, que necessitava
horas de lume, mas sabia a galinha, a que se juntava o arroz e o
sangue avinagrado que se transformava num molho cremoso com reflexos
de seda.
Ou o frango corado que se levava para a romaria ou até viagem e que
pouco mais pedia do que o calor do forno e o tempero do sal, visto
que os outros primores do sabor, ele os tinha sabido sintetizar a
partir do milho e das verduras com que amorosamente tinha sido
criado. Ou a boa vitela assada, o bacalhau assado com batatas a
murro, as trutas do Beça, os peixinhos dos rios em fritadas
gloriosas!
E os patos, os coelhos, a que se podia juntar carne de caça, que não
faltavam perdizes e coelhos, fosse o caçador de olho vivo e de
disparador ligeiro. Nos bons velhos tempos, o javali, a corça ou
cerva.
Para adoçar a boca e a digestão, o leite creme e as rabanadas de
mel, ingrediente este, que entre muitos outros doces, são o
complemento ideal.
A tudo isto, que não é pouco, juntemos os enchidos de sabor tão
característico, ainda hoje. Se percorrer estas terras em dia de
feira, faça por conhecer as nossas morcelas e alheiras. Faça um
arroz de morcela e nunca mais o esquecerá!» |