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Festa da Senhora do Monte (cancioneiro)
Monte - Madeira
Festa, festa mesmo, na Madeira são «As Festas», ciclo natalício que começa
com as «missas do parto» e culmina apoteoticamente na «passagem do ano», com
o magnífico fogo de artifício sobre a baía do Funchal, concentrando muita
gente que se desloca do interior para participar no acontecimento. Depois
ainda há, nas comunidades mais tradicionais, o «dia de reis». Mas as festas
religiosas evocando patronos dos vários sítios são pedra essencial para a
devoção de uns e a organização dos espaços lúdicos de outros. De entre estas
celebrações, a mais marcante continua a ser a da Senhora do Monte, em
Agosto. A igreja fica no cocuruto do anfiteatro que sai do mar, deixa
construir a cidade do Funchal e vai avançando num crescendo até às
serranias. Quase no alto fica a freguesia do Monte, um microclima bem
demonstrado na vegetação «exótica». As festas são de arrasar, embora hoje
demasiado invadidas pelo «plástico» e por «romeiros» citadinos pouco
envolvidos na mística que vale a deslocação para muitos outros. Marcam o
colorido barracas de comes e bebes e tendas que vendem chapéus de palha,
tradicionais bonecos de massa e rebuçados artesanais. Há que beber água da
fonte do largo onde era o terminal do único comboio que já houve na ilha.
É
na noite de 14 para 15 de Agosto que a coisa é de arromba. É tal a multidão
que quase não se consegue andar pelas alamedas que levam do largo até à
enorme escadaria por onde se chega ao templo, de frontispício que se impõe
de longe, com as suas duas torres e a brancura do paredão sobressaindo da
verdura do arvoredo, e onde a Senhora está exposta em altar magnificamente
ornado de flores. Por tradição deve ser o vinho a escorrer pelas gargantas,
mas já há muita carraspana «miseravelmente» apanhada com botelhas da boa
cerveja madeirense. As espetadas de tenra carne de vaca são também
indispensáveis, acompanhadas do «bolo de caco», uma amassadura especial que
dá um pão único, de chorar por mais. Como nem tudo neste mundo são
venalidades que nos levam inexoravelmente aos pecados capitais – e este tipo
de celebrações facilita premissas que não nos conduzem apenas ao da gula…-,
há os romeiros que ali vão para, ao arrepio incréu da maioria, pagarem
promessas com o recolhimento ou a expressão pública, como cada um prefere.
Pungente atitude devota, ela será, ainda, um elemento essencial da Festa da
Senhora do Monte, padroeira com fama de não abandonar quem a ela pede
intercessão para males e «sem remédios».
Não será justo apegarmo-nos à tradição que manda falar da «festa do Monte»
sem realçarmos outras celebrações. Machico inclina-se ao Santíssimo
Sacramento no último Domingo de Agosto: a não perder; no mesmo dia, S.
Vicente destaca o seu santo padroeiro; Câmara de Lobos e principalmente a
Ribeira Brava, comunidades à beira-mar, foram seduzidas por São Pedro (28 e
29 de Junho); na Ponta do Pargo, ainda em Agosto, a festa do sítio do
Amparo; no Porto Santo, a sequência que vai de 14 de Agosto ao final de
Setembro: festa da Graça, festa de Senhora da Piedade, festa do Santíssimo
Sacramento.
Destaque dos destaques: a festa do Senhor Bom Jesus, que se realiza na vila
de Ponta Delgada, na costa norte. Reza a lenda que este Senhor crucificado
deu à costa, dentro de um caixote, vindo sabe-se lá de onde, corria o ano de
1540, «em que o reino de Inglaterra padeceu a maior perseguição da
Heresia, por Henrique VIII». Terá fugido a imagem pia num barco que
naufragou? Terá sido pura e simplesmente deitada ao resguardo do mar, num
extremo salvamento, em qualquer plaga britânica? A verdade é que se tornou
milagreira, escapou a incêndios que destruíram totalmente o templo e
persiste, dando alento a crentes.
O arraial é enorme, a ele chegam romeiros para passarem a noite sob as
latadas das vinhas que dão o magnífico «americano», ou em folias pouco
recatadas em que os despiques com quadras picantes, acompanhadas de
instrumentos musicais tradicionais, são uma imprescindível harmonia para
suportar o relento. A procissão é grande, rica e muito penitente. Pelas ruas
come-se bem, bebe-se melhor, namora-se, compram-se recordações, um Bentinho
ou pagela para pôr na aba da chapelona. É da tradição. Que aqui se mantém. |
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