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Religiosamente falando, a padroeira da Fuzeta é Nossa Senhora do
Carmo. Mais do que a denominação do calendário litúrgico, as gentes da
Fuzeta transformaram as preces à «Senhora dos Navegantes» numa
súplica pela protecção contra a fúria do mar. A pesca do bacalhau na Terra
Nova ou na Gronelândia era dura, as embarcações precárias e as condições de
trabalho terríveis. Um escapulário usado como que colado ao corpo
acompanhava sempre os pescadores. As pequenas imagens eram benzidas antes da
partida, e na localidade ainda permanecem recordações dessa cerimónia. |
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A procissão remonta a meados do século passado, quando, ao haver
conhecimento de um naufrágio, foi a aldeia em peso pedir à padroeira a
salvação dos homens em perigo. Caso se salvassem haveria de ser feita, a
partir daí, sentida homenagem e esplendorosa festa. Não há registos
fidedignos desse hipotético salvamento, mas a tradição enraizou-se. Com o
passar dos anos a festa da Senhora do Carmo passou a assinalar
fundamentalmente o regresso dos pescadores bacalhoeiros. A extinção da
«frota branca» (como era conhecida a frota que se dedicava à pesca à linha
do bacalhau), levou ao retorno da data festiva às origens. A Senhora do
Carmo, cujo doa litúrgico é alvo de manifestações semelhantes em muitas das
comunidades piscatórias do Mediterrâneo.

A procissão ao longo da Ria Formosa, com as embarcações, ainda é uma
sentida e ingénua homenagem aos homens do mar à sua padroeira. Vai a imagem
da Igreja do Livramento, onde está recolhida durante o ano, até ao cais da
Fuzeta, para regressar 48 horas depois em caminho inverso. A este
passeio marítimo, realizado na véspera do 16 de Julho, junta-se uma mais
clássica procissão no dia seguinte, pelas ruas da vila, culminando com a
bênção das embarcações junto ao cais.
Nos seus votos continuarão talvez a pedir protecção contra os naufrágios,
mas suplicarão certamente o fim da crise que se tem abatido sobre a
actividade pesqueira da Fuzeta. |