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Outrora, a «arruaça» começava bem cedo. Hoje não tanto, pois os rapazes
solteiros, que são as figuras centrais deste ritual, ficam até altas horas
da madrugada nas discotecas da região e só começam a juntar-se por volta das
10 horas da manhã para iniciarem as tropelias.
Mascaram-se, geralmente com vistosos fatos de franjas de lã de cores
garridas, máscaras de lata, enfiadas de chocalhos à cinta e bandoleiras com
campainhas e guizos. Atravessam a aldeia e sobem a rua que conduz à feira,
entretanto montada ao longo da estrada para Macedo [de Cavaleiros]. Avançam
em grande algazarra acentuada pelo marulhar dos guizos e campainhas,
correndo atrás das raparigas e atacando os homens com um movimento das ancas
q ue transforma as bandoleiras de guizos em chicotes.
A função desta mascarada, em que os rapazes desempenham o papel de
demónios à solta, é precisamente a de representar o caos e a
desordem, o inverso dos valores dominantes na comunidade. Representam o
espírito do mal mas, neste curto interlúdio anual, gozam de total
impunidade.
Apenas falam por berros ininteligíveis ou para recitar loas e comédias em
que dão conta do que mais caricato, brejeiro ou condenável aconteceu na
povoação ao longo do último ano. Nestes arrazoados, chamam as coisas pelo
nome, e os temas mais comuns são os casos de infidelidade conjugal e a
leviandade desta ou daquela moça da aldeia que mais
tenha dado nas vistas.
Amiúde as descrições são pormenorizadas e contadas com gestos expressivos.
Também podem bater, as mais das vezes simbolicamente – por vezes esquecem o
simbolismo e ajustam contas antigas. Podem roubar peças de vestuário ou
adornos às jovens, e não se abstêm de as apalpar profusamente. (…)
A origem deste ritual, claramente pagão, remonta à noite dos tempos, tempos
muito anteriores ao cristianismo. Mas foram-se adaptando ao evoluir dos
tempos, embora sem perderem o simbolismo de uma prática daquilo que é o
comportamento proibido ao longo de todo o ano, e apenas tolerado quando os
mancebos celebram simultaneamente o início de mais um ciclo de
rejuvenescimento da terra, a sua ascensão ao estatuto de homem solteiro, com
o advento da puberdade e a concomitante apresentação ao sexo feminino.
Mas se o ritual é muito antigo, a sua divulgação é relativamente recente. Só
a partir dos finais dos anos 60 os etnógrafos começaram a debruçar-se mais
profundamente sobre este ritos carnavalescos tão característicos da região
transmontana.
Hoje o valor da festa em cada aldeia quase de mede pelo número de fotógrafos
e visitantes eruditos que aparecem para assistir aos rituais e deles darem
conta. (…) |