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Cabeça erguida, corpo firme e pernas leves, estes são os requisitos
necessários para ser um bom fandangueiro. De polegares nas covas dos
braços “fogoso e impaciente como um puro lusitano. O autêntico fandango
aparece-nos na pessoa do campino, que só se digna dançar de verdade,
quando baila sozinho". Como refere Pedro Homem de Mello, no seu livro
“Danças Portuguesas”, quer seja na lezíria quer seja na charneca, o
fandango é o rei da dança no Ribatejo. É uma dança de despique e de
desafio que o homem leva a cena, ostentando toda a sua virilidade e
capacidades individuais. Houve quem o definisse como dança inebriante,
viril, alucinante, interpretada por garbosos e orgulhosos campinos,
temerários e arrojados nas lides taurinas, pois dela não se pode excluir
o trabalho na lezíria bem como o gosto e a força para enfrentar a
braveza do touro.
Ao percorrermos a província ribatejana, acabamos por descobrir algumas
diferenças na forma de dançar e de trajar. Ao norte, na margem direita
do Rio Tejo, ficam os 'bairros', onde os campinos usam trajes mais
escuros e as danças são mais lentas; ao sul adivinham-se já os montados
de charneca, mas é na grande lezíria que o campino veste roupas mais
garridas e dança de forma mais agitada. Aí vamos encontrá-los com o fato
de trabalho cinzento e a faixa e o barrete encarnados. Na zona da
charneca, o ritmo da dança assemelha-se muito ao da lezíria. É que os
campinos dessa região, (que se aproxima bastante do Alentejo e que
muitas vezes e já confundida com ele), fazem questão de demonstrar que
são ribatejanos. O traje típico da mulher da lezíria que anda nos
arrozais é composto por duas saias e meias sem pés, às quais se dá o
nome de canos ou sacanitos. A mulher do bairro veste trajes mais escuros
em tons de castanho e preto, tal como o campino daquela região, que ao
contrário do da lezíria, usa cinta e barrete preto.
Ao contrário do que é do conhecimento comum, o fandango não é uma dança
exclusiva do Ribatejo. Pelo menos é assim que reza a historia desta
dança que já vem de longe. Já no século XVI, Gil Vicente usou o termo “esfandangado”,
no entanto, nada comprova que a sua utilização tivesse algo a ver como
que se chama hoje “fandango”. Mas foi só em setecentos que as
influências vindas de Espanha foram um marco importante no destino do
fandango. Várias foram e as fases que estiveram nos bastidores da dança,
ao longo destes séculos. As mitologias que se foram edificando fazem-nos
crer que o fandango é uma dança exclusiva do Ribatejo, mas a verdade é
que a história desmente esta ideia. Tal como já referimos, o fandango
chegou até Portugal no século XVIII, vindo dos palcos do teatro
espanhol. Em Portugal, o seu ritmo contagiante invadiu o país, primeiro
no círculo da aristocracia como dança de salão, depois nas tabernas, em
ambiente de homens. E a sua influência foi tal que até aos conventos o
fandango chegou, nessa altura dançado também por mulheres que rodopiavam
ao som da música e do estalido dos dedos. A voluptuosidade e o ginete
com que era dançado eram tais que o fandango acabou por ser
caracterizado como uma dança obscena, que servia muitas vezes de
instrumento de sedução. Assim, na segunda metade do século XVIII
vivia-se uma onda de “obsessão” pelo fandango que se estendeu a todo o
pais e que adquiriu um cunho próprio, de acordo com a região em que se
radicou.
Dançava-se no Minho, no Douro Litoral na Beira Interior e na Beira
Litoral, onde ainda no inicio do século se tocavam fandangos nos
arraiais. E no Minho ainda há quem chame "afandangados” a alguns viras.
Mas foi no Ribatejo que eles ficaram conhecidos como tal.
Consta que no século XVIII, o fandango era dançado por homem e mulher em
pé de igualdade. No entanto o facto de ele ter sido adoptado pelos
convivas das tabernas, que o dançavam sobre as mesas ao som do harmónio
e ao toque dos ‘copos', e interpretado como um dos motivos que conduziu
à masculinizarão da dança. Hoje, o fandango é uma dança exclusiva de
homens que deixou de ser apanágio das tabernas e bailes da aldeia para
se transformar numa manifestação de espectáculo folclórico.
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