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Antes de fazer as acarrejas do pão para as
proximidades das eiras, havia que cuidar do chão de cada uma delas,
segundo as condições em que cada uma destas se encontrassem. Faria falta
varrer o chão, ou rapar-lhe alguma erva com as enxadas, pondo-o bem
limpinho. Depois disso, vinha a operação mais característica do
aformoseamento do seu rosto:
Ia-se pelas lojas do gado vacum à procura de
umas largas caldeiras de bosta fresca. Transportava-se para a eira,
dissolvia-se de modo a poder servir de pasta mole com que toda ela
ficasse bem coberta. Usavam-se alguns vasculhos de giesta para alisar o
melhor possível a leve camada daquela espécie de goma que, em secando
pela acção do sol, resistia ao duro bater dos malhos, às agressões dos
restantes serviços, e continuava até ao Outono, para receber, v.c., a
colheita do feijão ou do milho.
Era a operação dita, na Castanheira, de
embostar, isto é, deitar ou aplicar a bosta. Sendo um trabalho sujo,
contribuía eficazmente para que o grão dos cereais se recolhesse limpo
de terra e areia.
Como a coisa mais natural do mundo, fazia
parte do ritual da vida, na sequência do rodar do tempo, ou como quem
queira: do rodar dos milénios que compõem a História da Humanidade.
Era um momento em que qualquer pessoa, ainda
mesmo que de muito respeito, conseguir mandar àquela cousa um filho, uma
filha, a própria esposa, sem o advir do menor melindre. E até daí
jorrava, tantas vezes, no encontro entre vizinhos a pedir a dita
cedência, o que de mais jocoso oferecesse a veia do bom humor... |
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O cereal, depois de segado e atado, ficava
em rodas. A roda era um conjunto de molhos dispostos de pé, encostados
uns aos outros e formando uma espiral.
Correspondia cada roda de molhos a uma
carrada com cerca de vinte pousadas o que equivalia a vinte alqueires de
grão, pois que uma pousada (eram quatro molhos em cada uma) dava um
alqueire de pão.
Com essa disposição, o pão aquecia ao sol,
acabando de secar a palha e o grão. Alguns dias depois, de cada roda era
feita uma meda, chamada morneiro, onde o pão continuava a fase de
amadurecimento. Depois, os vizinhos ajudavam-se uns aos outros, quanto
ao transporte do pão para as eiras, ao que se dava o nome de as
acarrejas.
Este trabalho comunitário obrigava as donas
de casa a usarem da sua acção providente, para oferecerem comida que
correspondesse à generosidade da prestação gratuita dos vizinhos.
Matava-se um frango ou um coelho, ou ia-se ao carniceiro comprar chicha,
como soi dizer-se na aldeia de Cimo de Vila, onde havia dois ou três "chicheiros"
que todos os dias costumavam ter carne de cordeiro para servir o povo.
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