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"Os quarenta dias de preparação para a Páscoa eram um período de
penitência, jejum e oração e, sob o ponto de vista alimentar, um período
magro.
A Quarentena abria com a Quarta-feira de Cinzas. Após um dia de folia, importava chamar o crente
à realidade, mesmo que, para isso, fosse necessário lembrar-lhe,
simbólica mas cruamente, que ele era um ser mortal.
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Ainda cedo (pois o dia
era de trabalho), o sino tocava para a missa. Reunida a assembleia, o
sacerdote impunha as cinzas, primeiro na sua testa e depois na dos fiéis
presentes, recordando em latim: «Lembra-te, ó homem, que és pó e que em
pó te hás-de tornar!». A esse rito seguia-se-lhe a missa, em que
dominava o arrependimento das faltas cometidas e o pedido de perdão a
Deus.(...)
A Quaresma estendia-se
por seis domingos, a que o povo, baseando-se nos textos das epístolas ou
nos acontecimentos mais relevantes, baptizou com os seguintes nomes:
«Ana, Magana, / Rebeca, Susana, / Lázaros, Ramos, / Na Páscoa estamos.»
Como aludi, uma das
características do tempo quaresmal era o jejum, obrigatório às quartas e
sextas, para quem tivesse mais de sete anos e menos de sessenta.
Pessoas, havia, contudo, que jejuavam todos os dias, menos ao domingo.
Era também num domingo da
Quaresma que se cumpriam os preceitos eclesiásticos de «confessar-se ao
menos uma vez cada ano» e de «comungar pela Páscoa da Ressurreição».
Depois duma novena de preparação dirigida por um pregador convidado,
procedia-se à desobriga ou confessos. A maioria dos fiéis
cumpria as suas obrigações pascais. (...)
No Domingo seguinte ao
dos confessos, toda a gente comungava. Isso repetia-se ao longo da
semana. Depois, voltava-se à dezena de comungantes do costume.
Na Quaresma, como se
disse, se efectuava a encomendação das almas e a serração das velhas.
Na
Quaresma (no seguimento do antigo costume da corrida do galo?) se levava
a cabo a festa escolar do galo. Na Quaresma, enfim, se fazia em Murça o
domingo da Cavaqueira: os vizinhos e amigos entravam em casa uns
dos outros e pegavam na louça velha que encontrassem; depois, traziam-na
para a rua e, postos em roda, começavam a jogá-la duns para os outros
até a desfazerem em cacos."
(*) Fonte: ALTO
DOURO, terra de vinho e de gente -
A vida quotidiana alto-duriense no primeiro terço do séc. XX -
A.L. Pinto da Costa
Edições Cosmos, Novembro de 1997, pág.204 a seg.
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