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(Continuação...)
Nesta
ordem de ideias, fácil nos é detectar o interesse manifestado pelos estudiosos
em relação à cultura popular.
Se é
verdade que «nem só de pão vive o homem», também é verdade que «é inútil pregar
a estômagos vazios». E o prolóquio latino «primum vivere, deinde filosophare»
tem plena actualidade.
Isto quer
dizer que uma definição de cultura implica a consideração de factores que tanto
respeitam ao bem do corpo, como ao bem do espírito.
B.
Malinowsky diz que numa definição de cultura «entram os utensílios e os bens de
consumo, as cartas orgânicas regulando os diversos grupos sociais, as ideias e
as artes, as crenças e os costumes. Quer se encare uma cultura simples e
primitiva, quer uma cultura complexa muito evoluída, necessário se torna deitar
mão de um vasto aparelho, por um lado material, por outro, humano e por outro,
ainda, espiritual que permita ao homem enfrentar os problemas concretos e
precisos que se lhe põem. Os problemas são devidos ao facto de que o corpo
humano é escravo de várias necessidades orgânicas e de que vive num meio que é
ao mesmo tempo favorável porque lhe fornece as matérias-primas para transformar
e desfavorável porque lhe fornece forças hostis» (une Théorie Scientifique de La
Culture, pág. 35 - 36).
J. Leite
de Vasconcelos, ao tentar elaborar um programa de estudo da cultura popular
portuguesa, diz-nos que além dos caracteres geográficos, fisiológicos,
históricos, inclui «os costumes que se revelam de modo material, os quais ipso
factu reflectem a vida intelectual e moral de quem os têm, a saber: artes
plásticas (...) industriais e caseiras, tipos de povoações e de edificações,
mobília, trajos e enfeites, comidas, utensílios, aprestos de caça, de pesca e de
lavoura, etc.; finalmente, incluirá o FOLKLORE ou as «Tradições Populares», isto
é, a superstição (mitologia, religião, magia ) literatura ( contos, lendas,
poesia épica, lírica, teatro, adágios ), actos e folganças ( festas, danças,
música, jogos, etc.)» ( Opúsculos, vol. V, Etnologia, pág. 7, 1938 ).
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