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O
CANCIONEIRO DA SERRA D'ARGA, que ora sai a lume e para o qual me pediram algumas
palavras à guisa de introdução, representa, além de um trabalho metódico e
esforçado do seu autor, uma iniciativa muito válida na defesa e preservação do
património cultural, expresso na tradição oral portuguesa.
Hoje,
fala-se muito de cultura popular, na necessidade imperiosa de a defender, nos
abusos e atropelos cometidos contra ela, sobretudo nesta época dominada pela
tecnologia e pouca gente possui dados concretos sobre o fenómeno cultural, quer
nos antecedentes, quer nas suas implicações de ordem intelectual, moral,
religiosa, económica e social.
A
cultura, de um modo geral, representa tudo aquilo que o homem produz de válido,
como ser pensante. Neste conceito genérico encaixa-se perfeitamente toda a
actividade humana desde os tempos mais recuados da pré-história até aos nossos
dias, uma vez que exprima uma resposta eficaz ao desafio lançado ao homem pela
natureza. Sempre que o homem, individual ou colectivamente considerado, põe o
seu intelecto e a sua vontade em acção, quer no plano das necessidades, quer no
plano dos desejos, torna-se um fabricante de cultura.
O mandato
do criador - possuí a terra e dominai-a - constitui o repto mais deslumbrante e
mais trágico lançado ao homem. É que entre o mundo e o homem estabelece-se uma
relação dialéctica que estimula o homem à satisfação das suas necessidades e dos
seus desejos, etapa por etapa, sem nunca atingir a plenitude. O homem idealiza,
trabalha, luta e sofre para concretizar os seus sonhos. E quando julga estar na
posse do troféu, nova etapa o solicita. Deste modo, o homem constitui a mola
fundamental do motor da história. Mas não só, pois « nas suas escolhas, o homem
é condicionado pela sua condição de indivíduo, pelas relações que o ligam aos a
outros indivíduos com os quais compartilha a sua vida e a natureza mais vasta
que o circunda e dentro da qual está incluído ». (Bernardo Bernardi, Introdução
aos Estudos Etno-Antropológicos, pág. 19, 1979).
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